Velar as imagens na Quaresma: como, quando e por quê?

Atualizado: Mar 11

Por Pe. Fabio Balbino*


A Quaresma se aproxima e muitas comunidades já estão se preparando para esse forte tempo litúrgico. Com o intuito de ajudar, vamos abordar um ponto muito peculiar e interessante desse período: a “velatio” — ou seja, o costume de velar as cruzes e as imagens dos santos durante a quaresma —, sua origem, o dia correto de fazê-la e o seu simbolismo.


Primeiramente, não é verdade que se vele as imagens por toda a Quaresma. Assim como o Advento — que divide o tempo do 1º até o 3º domingo, tratando da segunda vinda de Cristo, e o 4º tratando da encarnação —, a Quaresma também tem uma divisão interna: do 1º ao 4º domingo, tratando do tema da conversão, e do 5º ao Domingo de Ramos (e da Paixão do Senhor), tratando do tema da paixão e morte. É precisamente na véspera do 5º domingo da Quaresma que o Missal Romano traz a seguinte rubrica: “Pode-se conservar o costume de cobrir as cruzes e as imagens da igreja, a juízo das Conferências Episcopais. As cruzes permanecerão veladas até o fim da celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa. As imagens, até o início da Vigília Pascal.”


Trata-se, portanto, de um costume, e não de uma norma, como antes da reforma litúrgica. Mas não é pelo fato de ser um costume que deva ser feito aleatoriamente, na quarta-feira de cinzas ou ainda no domingo de Ramos. Existe um dia determinado para aqueles que optarem pela “velatio”: o dia é a véspera do 5º domingo da Quaresma, quando se iniciava o antigo tempo da paixão.

Esta cerimônia parece ter origem na Gália, no século VII, chegando à Itália no século X, e no século XI se estendendo a grande parte do ocidente.


Trata-se de, nessas duas últimas semanas da Quaresma, fazermos uma mortificação visual, anteciparmos o luto da paixão e centrarmo-nos no essencial. A Liturgia é pedagógica quando vai gradativamente tirando seus elementos. No início da Quaresma, vai tirar-nos o aleluia e o glória, o órgão, as flores; no 5º domingo da Quaresma, as cruzes e imagens dos Santos. E ainda: vai tirar-nos os ornamentos do altar após a missa da Ceia do Senhor, vai tirar-nos, inclusive, a celebração da Eucaristia na Sexta-feira Santa, e até mesmo a Reserva Eucarística no Sábado Santo. Percebam que é algo gradual, pedagógico para os sentidos.


Muitos autores ligam o fato da “velatio” ser feita no 5º domingo da quaresma ao fato de que era nesse dia que se lia o evangelho em que os judeus tentam apedrejar o Senhor: “Jesus, porém, se ocultou e saiu do templo” (Jo 8, 59b).

Esperamos que a fidelidade ao espírito da liturgia nos faça crescer para celebrarmos o Mistério Pascal de Cristo com mais intensidade e profundidade nesta Quaresma e nesta Páscoa.



*Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

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