Tu mecum semper es



Fili, tu mecum semper es (filho, tú estás sempre comigo – Lc 15, 31) são as palavras do pai ao filho mais velho, na famosa “parábola do filho pródigo”. Contudo, o filho mais jovem poderia, sem dúvida, usar estas mesmas palavras para o seu pai, que esteve todos os dias a lhe esperar. Por isso, resolvi fazer destas palavras minha oração de todos os dias. Pois resume um sentimento de gratidão ao Senhor por estar sempre conosco. E mais que isso, é um ato de fé na presença de Deus; e em sua palavra que diz: “não temas, eu estou contigo” (Is 41, 10).


Foi Deus quem esteve com seu povo no deserto, na Antiga Aliança, “[...] de dia numa coluna de nuvens, para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo para lhes alumiar, a fim de que pudessem caminhar de dia e de noite” (Ex 13, 21), assim também está com cada um de nós em todos os momentos de nossas vidas. “Durante o dia”, ou seja, nos momentos bons – de paz e alegria, e “durante a noite”, ou seja, nos momentos difíceis – de dor e sofrimento. A Virgem Maria, Mãe de Deus, é testemunha da presença do Senhor em sua vida, pois foi a Ela que o anjo Gabriel falou “o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). Foi a Moisés que Deus falou “eu estarei contigo” (Ex 3, 12). E a todos nós prometeu: “Eis que eu estou convosco todos os dias...” (Mt 28, 20).


A presença de Deus – em Jesus Cristo – acontece de diversas formas: Ele está no mais íntimo de nós, está no próximo, principalmente nos pobres e esquecidos. E, sobretudo, na Eucaristia. Assim cumpre Sua promessa de não nos deixar.


1. No mais íntimo de nós: “Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos” diz Sto. Agostinho. Também diz “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora!”. Aquele que É (cf. Ex 3, 14) é o que dá a graça do “ser” a toda criatura, que sustenta o ser de cada uma (...), pensando nelas a todo instante, de tal modo que se Deus deixasse de pensar em nós cairíamos no nada. Mas Ele não o faz, pois, diferente de nós, não volta atrás em Suas decisões. Se Ele nos criou é para sempre. E para sempre vai sustentar nossa existência. Sua presença está nós como Criador, e pelo Batismo, como Pai. Diz Jesus “não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14, 18); e mais: “se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e estabeleceremos morada” (Jo 14, 23). Aqui percebemos o ponto máximo da presença de Cristo em nós.


2. No próximo: quando Jesus fala das obras de misericórdia, tais como dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede etc., diz “todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 45). Estas serão as palavras de Jesus para aqueles que deixarem de servir o próximo. Aqui Ele deixa muito clara Sua presença nos mais pobres e esquecidos. Mas não deixa de estar nos que convivem conosco no dia a dia. O mandamento é “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12, 31). Por que o Senhor nos mandaria amar o próximo se nele não estivesse? Logo, devemos amar Cristo no outro.


3. Na Eucaristia: [...] o bom Jesus, considerando o que havia prometido por nós, viu o quanto nos importava cumprir esta palavra” (Santa Tereza d’Avila), por isso instituiu um sacramento no qual pudesse, de um modo muito especial, estar conosco. Neste sacramento sua presença é plena (Corpo, Sangue, Alma e Divindade). Por isso é o maior dos sacramentos, pois, diferente dos outros, em que dá sua graça, neste, Ele dar-se todo a nós. De tal modo a Igreja crê nisso que São João da Cruz não teve medo de dizer: “O céu é meu e minha a terra; minhas são as gentes, os justos são meus e meus os pecadores, os anjos são meus e a Mãe de Deus, e todas as coisas são minhas; e o próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Que pedes pois e buscas, alma minha? Tudo isto é teu e tudo para ti.” Essas palavras podem ser ditas, sem medo algum de estar errado, quando recebemos a santa Comunhão. Jesus está verdadeiramente em nós. “Ele quis que víssemos quanto nos amava. Isto não uma vez, mas, todos os dias. Resolveu então ficar para sempre conosco.” (Santa Tereza d’Avila).


E diante de tão sublime presença devemos dizer como os discípulos: “permanece conosco [Senhor]...” (Lc 24, 29). E nós devemos permanecer com Ele, assim como fez Maria “[ela] escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 42). A melhor parte é estar com o Senhor, que não nos será tirado. Todo o resto pode ser-nos tirado: lembro-me de um casal de namorados em que um gostava de dizer para sua querida “você sempre está comigo”, era sua mais nobre declaração de amor, era uma forma diferente de dizer “eu te amo”, e com isso o jovem queria dizer que ela estava com ele em todos os momentos, inclusive na ausência, quando permanecia na memória e no coração dele. Até que um dia percebeu-se abandonado por sua jovem namorada, e começou a perguntar-se “cadê-la? Para onde foi? Não está mais comigo!” Foi quando entendeu que estava dizendo suas palavras de amor e confiança para a pessoa errada. O único que nunca lhe abandonou, que está com ele em todos os momentos – Jesus; para Este sim, nós podemos dizer, sem medo de errar, “Tú estás sempre comigo”.


Motivo de grande contentamento será para nós ouvir de Jesus o que disse a seus apóstolos: “fostes vós que estivestes comigo em todas as minhas provações” (Lc 22, 28), e mais: “tudo o que é meu é teu” por isso “vem alegrar-te com o teu Senhor” (Lc 15, 31; Mt 25, 23). Nesta esperança digamos com toda confiança: “Tu mecum semper es...”; Senhor, Tú estás sempre comigo e eu quero sempre estar Contigo.


59 visualizações0 comentário