Quaresma: tempo de reflexão e aprofundamento da experiência com Jesus Cristo.

Atualizado: 29 de Abr de 2020

Desde o último dia 26 de fevereiro, fomos introduzidos num período de profundo significado para a caminhada de fé dos católicos em todo o mundo. A partir daquela ocasião, fez-se uma pausa no Tempo Comum e, com a celebração da Quarta-Feira de Cinzas, deu-se início ao Tempo da Quaresma.



Na sua origem, no contexto dos primeiros séculos do cristianismo, a Quaresma é o resultado de um longo processo de sedimentação de três itinerários litúrgico-sacramentais: a preparação imediata dos catecúmenos para os sacramentos da iniciação cristã (comumente realizada na Páscoa); a penitência pública (que habilitava à reconciliação na Quinta-Feira Santa); e a melhor, mais intensa e mais aprofundada participação da comunidade cristã nos dois eventos anteriores.


A quantidade de dias em que se procurava fazer tal preparação variou durante algum período e a Quaresma ficou conhecida com esse nome e assumiu um modelo próximo do atual desde, pelo menos, o séc. IV. De qualquer maneira, assim como em todo o amplo ciclo do Ano Litúrgico, as celebrações quaresmais - e, especialmente, elas - têm na Páscoa a sua razão de ser. Essa sua condição manifesta a natureza do culto da Igreja, que surgiu para celebrar a Páscoa de Cristo.


É a Páscoa o centro da vida dos cristãos: é dela que deriva a nossa esperança, é dela que se alimenta a nossa fé e, segundo essa lógica, portanto, vai melhor experimentar os seus efeitos quem conseguir viver os dias quaresmais como um tempo de reflexão e aprofundamento da experiência com Jesus Cristo.

Mas, de que forma podemos fazer essa experiência? Inicialmente, podemos orientar nosso itinerário quaresmal a partir da estrutura e da espiritualidade próprias desse período litúrgico. Nesse sentido, alguns elementos que, a partir de agora, pretendemos destacar, surgem como vigorosos sinais do que a graça de Deus realizar em nossa vida de fé, especialmente durante estes dias.


A Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II[1] sugere uma renovada valorização da palavra de Deus, da oração e da penitência, por exemplo. Nela se indica que, no tempo quaresmal, os fiéis devem dedicar-se “com maior afinco, a ouvir a palavra de Deus e à oração” (SC 109): a palavra de Deus, onde a “Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força”[2] e a oração que, nas palavras de Santo Agostinho, se pode traduzir como “o encontro entre a sede de Deus e a nossa”[3].


Nesse mesmo documento também encontramos uma recomendação quanto penitênciaque, na Quaresma, todos somos convidados a praticar. Segundo assevera a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, “além de interna e individual, a penitência deve ser externa e social” (SC 110) e, por isso, nossa atenção deve se voltar “para as consequências sociais do pecado, juntamente com a consideração da natureza própria do pecado, que deve ser detestado” (SC 109). Aqui, talvez, seja importante recordar que a penitência, quando sincera, passa por adorar a Deus e servir o próximo.


Depois, podemos, ainda, se de fato desejamos viver os dias quaresmais como um tempo de reflexão e aprofundamento da experiência com Jesus Cristo, pensar um pouco nos momentos fortes de espiritualidade desse tempo. Antes de qualquer outro, temos a Quarta-Feira de Cinzas. A celebração atual deste dia reinterpretou o rito da cinza (cf. Gn 3,19) como expressão da vontade de conversão diante do chamado de Deus. Isso fica reforçado pelo fato de as leituras da missa convidarem à autenticidade das obras penitenciais da Quaresma (ver Jl 2,12-18; 2Cor 5,20-6,2 e Mt 6,1-6.16-18).


Nós todos devemos ir às cinzas da quarta desejosos que se manifeste em nós a graça e a alegria do domingo!

Também podemos considerar os Domingos da Quaresma, que “são chamados I, II, III, IV e V, mas o VI tem por título Domingo de Ramos na Paixão do Senhor”[4] e constituem a trama de todo esse tempo: neles, as leituras do AT (primeira leitura) se referem à história da salvação, que é apresentada desde o princípio (I Dom: Gn 2,7-9; 3,1-7) até a promessa da Nova Aliança (V Dom: Ez 37, 12-42); as segundas leituras aprofundam o significado de cada domingo; e os evangelhos, as orações do dia e os prefácios completam esse cenário, que pretende descrever a gravidade do nosso pecado e a resposta de Deus com a plenitude do perdão.


Ao lado desses aspectos aqui destacados, outros também podem nos ajudar em nossa reflexão e aprofundamento da experiência com Jesus Cristo durante a Quaresma. Esse é o típico período para recuperarmos a prática do jejum – especialmente “o jejum da Sexta-Feira Santa e, eventualmente, também do sábado, para que se chegue com entusiasmo às alegrias do domingo da ressurreição” (SC 110) –, para reforçarmos os propósitos de correção dos nosso vícios, de elevação dos nossos sentimentos, da fortificação de nosso espírito fraterno e, fundamentalmente, para rejuvenescermos nossa esperança na eterna recompensa que Deus nos quer presentar.


Nunca será demais recordar daquelas tradicionais práticas piedosas, que muito ajudam a meditar sobre a profundidade e o amor do Sagrado Coração de Jesus por todos nós, como a Via-Sacra e a contemplação dos mistérios dolorosos do Rosário da Virgem Maria, por exemplo. Esse também é um tempo oportuno para a missão, pois também nos recorda que somos enviados a viver a esmola ou a caridade. Também não podem ser ignoradas as ações referentes à Campanha da Fraternidade que, em 2020, tem como tema e lema Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso / "Viu, sentiu compaixão e cuidou dele" (Lc 10,33-34), e nos convida a refletirmos sobre o significado mais profundo da vida em suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.


Definitivamente, o tempo quaresmal inspira a nossa conversão e, por isso, o itinerário nela percorrido deve sempre e mais comprometer-nos com uma vida obediente à vontade de Deus. Importa, portanto, fazer o mesmo caminho de Cristo, que se esvaziou e se entregou por nós. Importa olhá-lo e desejar imitá-lo. Importa segui-lo e, como ele, servir. Importa manter os olhos fixos nele (cf. Hb 12,2), que nos amou, por nós se entregou (cf. Gl 2,20) e nos quer fazer conhecer a força renovadora de sua Páscoa, que depois destes dias de Quaresma, como Igreja, todos juntos iremos celebrar.



[1] CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium: sobre a Sagrada Liturgia. In: Texto de Vaticano II: mensagens, discursos, documentos. 11 ed. São Paulo, Paulinas, 1998. [2] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 104. São Paulo: Edições Loyola, 2000. [3] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 2560. São Paulo: Edições Loyola, 2000. [4] LÓPEZ MARTIN, J. A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 358.

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