O primeiro padre brasileiro

Atualizado: 26 de jan.



No mês de agosto, especialmente voltado, no Brasil, para o tema das vocações, todo o povo de Deus é chamado a intensificar o pedido constante para que Deus envie operários para trabalhar na messe que é tão grande. Esse pedido, que brota do Coração sacerdotal do próprio Cristo, sempre ecoou em terras brasileiras, onde a extensão territorial sempre exigiu grande número de operários. Já na década de 30 o Cardeal Leme unia essas preces na oração pelo clero por ele composta:


“multiplicai as vocações sacerdotais na nossa pátria; atraí ao vosso altar os filhos do nosso Brasil; chamai-os com instância ao vosso ministério”.

A presença de ministros ordenados no Brasil é registrada desde o desembarque de Cabral em 1500. Bem divulgado é o fato de que quatro dias após o descobrimento frei Henrique de Coimbra celebrava a primeira missa na Terra de Santa Cruz. Com o processo de colonização chegaram também os missionários, destacando-se de modo especial a ação dos jesuítas. Mas afinal, que foi o primeiro nascido em terras brasileiras a escutar o chamado do Bom Pastor e responder com generosidade entregando a vida no serviço do altar? Provavelmente a primeira ordenação sacerdotal realizada no Brasil foi a de Vicente Rodrigues, jesuíta português ordenado em 1553 em Salvador pelo primeiro bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha. Mas honra de ser o primeiro padre brasileiro cabe a outro jesuíta.


Nascido em 1543 em Vitória, no Espírito Santo, Diogo Fernandes entrou na Companhia de Jesus em 1560, aos 17 anos de idade, recebido pelo Pe. Manuel da Nóbrega. Conhecedor da língua dos nativos, dividia seu apostolado entre os indígenas da Vila de Vitória, para quem dava catequese, segundo os registros da época, “com muita caridade e zelo da salvação das almas”, e os aldeamentos que visitava pelo menos uma vez por semana, onde, conforme os testemunhos de seus contemporâneos, acudia os enfermos a apaziguava os conflitos entre os casais, chamando-os ao exercício da caridade.


Por volta de 1567 Diogo Fernandes segue para a Bahia, onde continua seus estudos no Colégio dos Jesuítas em Salvador, aplicando-se principalmente no latim e nos casos de consciência da teologia moral. No dia 24 de junho de 1572, Solenidade de São João Batista, pela primeira vez um filho da Terra de Santa Cruz recebe o Sacramento da Ordem. Diogo foi ordenado logo após professar solenemente os votos, junto com o português Antônio de Aranda, recebendo a imposição das mãos do segundo bispo de Salvador, D. Pedro Leitão.


O agora Pe. Diogo Fernandes fez questão de esperar até o dia 25 de julho para rezar sua primeira missa, ou “missa nova”, na expressão mais tradicional. E o fez por ser essa data a festa de São Tiago, patrono da Aldeia de Santiago, onde viviam cerca de 4.000 índios. A primeira missa do primeiro padre brasileiro ficou registrada em um documento da época, que assim nos fala daquela festa de São Tiago em 25 de julho de 1572:


“Celebram-se estas festas com grandes solenidades e com procissões e missas cantadas em canto de órgão e flautas, que oficiam os próprios meninos índios da Escola; em especial na Aldeia de Santiago, onde o Pe. Diogo Fernandes disse a sua missa nova com muita festa e consolação dos índios e muitos brancos que ali se acharam”.

Terminadas as solenidades de suas primícias sacerdotais, Pe. Diogo Fernandes seguiu para uma breve estada no Colégios dos Jesuítas do Rio de Janeiro, seguindo depois para o Espírito Santo, onde desenvolveu sua atividade pastoral. Ali, em 1587, recebeu para lhe auxiliar na catequese ninguém menos que São José de Anchieta. Apesar de ser referido como alguém de saúde fraca, o primeiro padre brasileiro foi incansável missionário que, como noticiado em uma das cartas de seus colegas jesuítas,


“quase sempre se exercitou na conversão dos índios e por amor deles foi três ou quatro vezes ao sertão com grandes perigos e trabalhos”.

Há notícias de que teria ficado até 8 meses no interior, em missões nas tribos de índios ainda não batizados e, ao longo de seu ministério, trouxe para o redil de Cristo pelo menos 12.000 almas. Certa vez, retornando de uma missão acompanhado de 2.000 indígenas, pe. Diogo foi testemunha de um milagre realizado pelo Apóstolo do Brasil. Recebido na vila por São José de Anchieta, viu este fazer milagrosamente levantar-se um dos índios do grupo que era aleijado.


O primeiro filho do Brasil a subir ao altar Deus morreu em 28 de abril de 1607, com 64 anos. Acorreram a seu enterro todos os padres da região e em Vitória, sua terra natal, fizeram-se exéquias solenes. Mas os mais consternados com a morte do Pe. Diogo Fernandes eram os indígenas, as ovelhas que com tanta caridade cuidara ao longo de seu pastoreio. “Pai dos órfãos”, “fiel guarda das consciências”, “médico das almas”, “consolo das suas dores” e “amparo nas suas dificuldades” são os títulos com que os nativos chamavam aquele seu conterrâneo, primícias sacerdotais do Brasil. Foi enterrado na Aldeia de Reritiba, hoje município de Anchieta-ES, em meios aos indígenas com quem sempre viveu, na Igreja de N. Sra. da Assunção, onde hoje está o Santuário Nacional de São José de Anchieta. De seu túmulo os indígenas levavam para casa punhados de terra, por considerarem que ali se enterrava um santo.


Passados cinco séculos de história, muitos são os brasileiros que seguiram o pe. Diogo Fernandes na resposta ao chamado vocacional de Cristo. Muitos foram os sacerdotes que aqui edificaram o Reino de Deus e cooperaram na edificação da nação brasileira, imbuindo nos corações a caridade e seus frutos, numa incansável atividade pastoral. Cabe-nos hoje elevar ao Coração do Bom Pastor uma ação de graças e suplicar para que a cada dia os filhos de nosso Brasil respondam com generosidade a sinceridade ao chamado, lutando por imitar fielmente a Cristo. Que constantemente saia de nossos lábios a suplica ardente do Divino Redentor: Mitte, Domine, operarios in messen tuam – enviai, Senhor, operários para a vossa messe!