O Mistério da Ressurreição de Jesus segundo São Tomás de Aquino




Na Suma Teológica o santo Seráfico trata de um modo amplo e profundo do tema da ressurreição Jesus Cristo nas questões 53 a 56 da Parte III. Costuma-se datar a redação desta parte de pouco antes da sua morte, entre 1272-1273. É fruto, portanto, do seu pensamento teológico maduro, revisto, consolidado. Eis a seguir algumas ideias relevantes apresentadas nos 16 artigos destas 4 questões, que aqui agrupo em 10 temas, de um modo sintético. Entre aspas citações textuais da obra, a partir da versão brasileira do Dr. Alexandre Correia.


1. Era necessária a ressurreição de Cristo – Em Lc 24,46 se lê que “o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos”, e Santo Tomás identifica 5 motivos para isso:


1º) “Manifestação da justiça divina”: que exalta “os que se humilham por amor de Deus” conforme Lc 1,52 – Ora, Cristo, movido pela “caridade e obediência”, se humilhou até a cruz (Fl 2,8).


2º) Confirmação da “nossa fé na divindade de Cristo”: pois se não fosse assim “vazia” seria a profissão de fé do cristão (1 Cor 15,14; cf. 2 Cor 13,4).


3º) Sustentação da nossa esperança: sendo Ele a nossa “cabeça” (Cl 1,18), haveremos também de ressurgir (cf. 1Cor 15,12; Jó 19,25.27) – num outro texto (o art. 1º da questão 56), Santo Tomás cita também Jo 5,21: “assim também o Filho dá vida a quem quer”, e no artigo seguinte sentencia: a sua ressurreição é a “causa eficiente” e “causa exemplar” da nossa. Santo Tomás trata novamente do tema da ressurreição mais adiante (no Suplemento), identificando 4 qualidades especiais de um corpo ressuscitado (impassibilidade; sutileza; agilidade; claridade – qq. 82-85), bem como na Suma contra os gentios (livro IV, cc. LXXIX-XCV), onde defende inclusive que “é conveniente” que ressuscitemos “na idade de Cristo, idade juvenil” (c. LXXXVIII,5).


4º) Inspiração para regrar a nossa vida: “assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4; cf. vv. 9.11) – na Suma contra os gentios, Santo Tomás ensina que há também uma “ressurreição espiritual” pela fé que nos une ao Senhor (livro IV, c. LXXIX, 7; cf. Hb 2,4).


5º) Complementação da nossa salvação: ressurge “para nos dar a posse do bem”, conforme Rm 4,25: “ressuscitado para nossa justificação” – ou seja, “foi o começo e o penhor dos bens”. No art. 2 da questão 56 explica: justificação é “a ressurreição das almas”, ou seja, “a remissão da culpa” e “a vida da graça”.


2. Cristo devia ressurgir no 3º dia – Nos seus 3 anúncios da paixão, Jesus declarou que ressuscitaria ao 3º dia (cf. Mt 16,21; 17,23; 20,19). Para Sto. Tomás, o principal motivo foi “para que fosse confirmada a fé na verdade da sua humanidade e da sua morte”, garantida pelo intervalo de um dia inteiro e duas noites. Não passou por isto, porém, como “prisioneiro da morte”, mas “por vontade própria”.


O Santo Doutor – apoiando-se em S. Agostinho (IV De Trinit.) – contempla outro detalhe interessante: Jesus morreu quando já o dia entardecia – para mostrar que “pela sua morte destruiria as trevas da culpa e da pena”; ressurgiu quando já o sol começava a iluminar o ar (Mc 16,2) – a fim de que se aplicassem as palavras do Apóstolo: Noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor (Ef 5,8).


3. Cristo foi o 1º que ressurgiu – A Sagrada Escritura registra alguns milagres de mortos que voltaram à vida (reanimações), no Antigo e Novo Testamentos (cf. 1Rs 17,19ss; 2Rs 4,32ss; Mt 9,18; Lc 7,11; Jo 11; Hb 11,35). Jesus Cristo ressuscitou como “primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20). Qual a diferença? No 1º caso, trata-se de simplesmente voltar a viver, ainda que por um ato milagroso, mas “sujeitos a morrerem de novo” (o que Tomás chama de “ressurreição imperfeita”); já o caso de Cristo é inédito: ficar livre da “necessidade” e “possibilidade” de morrer de novo, ou seja, “chegou à vida perfeitamente imortal” (a “ressurreição perfeita”), como se lê em Rm 6,9: “Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre”.


Santo Tomás analisa neste ponto o complexo episódio de Mt 27,52. Apoiando-se em São Jerônimo (In Matth.) e SantoAgostinho (Ad Evodium), conclui que os mortos que saíram dos túmulos na hora da morte de Cristo “ressurgiram, mas para morrer de novo”.


4. Cristo foi a causa da sua ressurreição – Claramente, durante a sua vida pública, Jesus declarou: “Ninguém tira de mim a minha alma, mas eu de mim mesmo a ponho e tenho o poder de a reassumir” (Jo 10,17-18). Na condição de Filho ou Verbo de Deus, a sua divindade estava unida ao seu corpo e à sua alma humanas (união hipostática). Por isso, na ressurreição, “segundo a virtude divina, o corpo e a alma se reassumiram mutuamente” – é mais um sinal do “poder de Deus” (2 Cor 13,4). É importante lembrar que, na teologia tomasiana (e, de resto, na teologia católica oficial), toda a Trindade age no mundo e na história, embora possamos atribuir a uma ou outra Pessoa – em nossa linguagem limitada pela contingência – uma ação específica.


5. Cristo ressuscitado tem um corpo verdadeiro, humano, o mesmo que antes – Segundo os relatos bíblicos, os discípulos ficaram espantados ao verem Jesus após a sua morte, pensando que era “algum espírito”; mas o próprio Senhor lhes dissipou as dúvidas: “Apalpai-me entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho” (Lc 24,39; cf. v. 37). Trata-se de um corpo humano verdadeiro, com todas as suas partes, e substancialmente o mesmo quando esteve conosco, do contrário a ressurreição teria sido “aparente” – a única diferença era “a glória da claridade”. É incisivo quanto à sua realidade física: “Ora, o corpo de Cristo, depois da ressurreição, foi realmente composto de elementos, tendo em si qualidades tangíveis...” (S. Th. III, q. 54, art. 2, ad 2; cf. id., art. 3). Assim, o Ressuscitado pôde comer peixe, não que precisasse de alimento, mas para atestar que era Ele mesmo. O ilustre Teológo insiste sobre este ponto mais adiante: “Portanto, se o corpo que a alma reassume não é o mesmo a que esteve unida, não poderemos falar de ressurreição, mas antes de assunção de um novo corpo” (S. Th., Supl., q. 79, art. 1, c.) – inclusive, p. ex., com “cabelos e unhas” (Supl., q. 80, art. 2).


Santo Tomás destaca (q. 55, art. 5) que Cristo quis aparecer “com muitas provas” (At 1,3). Explica que Ele quis provar a sua ressurreição tanto “pela autoridade da Sagrada Escritura, fundamento da fé” (Lc 24,4ss), como por sinais sensíveis que induzem à manifestação de alguma verdade: - já que os seus corações não estavam dispostos a crer facilmente (Lc 24,25); - e para que “o testemunho que dessem fosse mais eficaz”, conforme 1Jo 1,1-2. E sublinha logo em seguida (id., art. 6), respondendo a qualquer ceticismo ou racionalismo arbitrários, do passado e do presente: “Quanto às provas, também foram suficientes para declarar a sua verdadeira ressurreição...”.


A sua alma humana após a ressurreição também era verdadeira, pois nela vemos: - atividade da vida nutritiva (comeu, bebeu); - atividade da vida sensitiva (enxergava, ouvia, por isso saudava, respondia); - atividade da vida intelectiva (falava, discorria sobre as Escrituras).


6. O corpo de Cristo ressurgiu glorioso – O Pai lhe havia garantido: “Eu o glorifiquei e o glorificarei novamente” (Jo 12,28). O esplendor do seu corpo e alma ressuscitados é garantia do nosso futuro esplendor: “Reformará o nosso corpo abatido, para o fazer conforme ao seu corpo glorioso” (Fl 3,21; cf. 1Cor 15,12s). Tomás recorda ainda que já desde a sua concepção no ventre imaculado de Maria (Anunciação) a alma de Cristo era gloriosa “pela fruição perfeita da divindade”, mas quis nos escondê-la até se cumprir “o mistério da nossa redenção” na Paixão. No Compêndio de Teologia especifica que a sua glória de ressuscitado é maior do que será a nossa (cf. I, cap. CCXXXIX, 7; cf. Ap 21,23).