Nossa sexualidade e o eros chamado a santidade esponsal

Atualizado: 26 de jan.



O Deus que nos chamou a existência, também nos convida a estar com Ele na eternidade, a sermos santos. Há, portanto, na vocação do homem uma orientação para a conquista de sua plena realização, de sua maturidade e isso perpassa toda a sua sexualidade. É nela que este chamado se materializa no apelo de tornar-se homem e mulher inteiros capazes de fazer e proporcionar experiencias humanas sadias estabelecendo relações autenticas.


A interação sexual é uma abertura que propõe escuta, aceitação, atenção e respeito. Ela não se compõe de um sujeito isolado, mas se constrói na comunhão, na mútua colaboração, no intercambio, na partilha, na oblatividade. Só se faz e alcança seu objetivo quando é vista e recebida como dom, gerando continuamente vida e sendo fecunda, cumprindo o seu papel unitivo com a capacidade de reciprocidade e complementariedade. Quando cada um se vê, não para si, mas para os outros.



O homem na sua masculinidade e a mulher na sua feminilidade desenvolvem-se como pessoas humanas íntegras, maduras e harmoniosas em si e na relação com os outros na medida em que a sua sexualidade é vivida como dom de si mesma. É a sexualidade que permite o relacionamento interpessoal e essa sua integração se dá pelo amor, seja amor doação, amor fecundidade ou ambos. Esta troca de dons gera uma divisão de bens capaz de deixar tanto um como o outro mais rico. Assim está expressa na máxima: “quando dividimos os dons materiais ficamos mais pobres, quando divido os bens espirituais ficamos mais ricos.”



O verdadeiro encontro é maduro quando se caracteriza pela aceitação do outro como ele é e se doa para amadurecê-lo. Só o amor verdadeiro capacita a pessoa a integrar a sua sexualidade no modo de ser: um ajuda o outro a alcançar a sua estatura plena.


É um desenvolver-se por inteiro, sem reduzir a sexualidade a simplesmente afetividade ou genitalidade como é comum em alguns círculos. Devemos levar em consideração todos os seus aspectos: espiritual, na relação com Deus; cultural, nas relações com o ambiente e a ordem moral; social, na relação com os outros; psicológica, na relação consigo mesmo e físico, no controle das funções. Tudo isso é sexualidade humana e tudo tem como objetivo nos levar em todas estas ordens a maturidade, plena realização a um amor integro.



O Papa Bento XVI na encíclica Deus caritas Est nos diz que “Deus nos ama com amor erótico”. Quer dizer que o próprio Deus se Encarna, vem ao nosso encontro, assume uma sexualidade para redimir a nossa. Se coloca como perfeito modelo de homem, íntegro, maduro. E esse mesmo Deus quer estar conosco, unido para sempre. Como um Esposo que desposa a sua esposa. Para nós pode até soar estranho já que nosso erotismo está contaminado com as mazelas do pecado original e precisa passar por um processo de purificação. Mas em Deus há também amor Eros. Eros e ágape estão unidos à própria fonte do amor, que é Ele mesmo.



Criou-se no nosso mundo uma espécie de negação do eros, como se ele fosse em si mal, visto em contraposição ao ágape. Mas isso é uma forma de fragmentar o amor humano.


Um homem que não ama com eros é frio, morno, é um amor não desce para o coração e não penetra a alma. Não podemos negar que existe uma função positiva do eros, obviamente ela precisa passar por um caminho de purificação, mas não deve ser ignorada. Temos que resgatá-lo e esse resgate nos ajuda a amar a Deus como homens que somos, carnais e não como anjos. Também ajuda os esposos cristãos, mostrando a beleza e a dignidade do amor que os une. Ajuda os jovens a experimentar o fascínio do outro sexo não como coisa turva, a ser vivida às costas de Deus, mas, ao contrário, como um dom do Criador para a sua alegria, desde que vivido na ordem querida por Ele.



Nas Sagradas Escrituras, muitas são as vezes que Deus se utiliza da imagem do casamento para mostrar seu desejo amoroso de estar unido a seu povo. Como nos diz em Isaias: “Assim como um jovem desposa uma jovem, aquele que te tiver construído te desposará; e como a recém-casada faz a alegria de seu marido, tu farás a alegria de teu Deus.” (Is 62,5) do mesmo modo na profecia de Ezequiel: “Cresceste. Ficaste moça. Teus seios se formaram, veio-te o pelo. Mas estavas nua, inteiramente nua. Passando junto de ti, verifiquei que já havia chegado o teu tempo, o tempo dos amores. Estendi sobre ti o pano do meu manto, cobri tua nudez; depois, fiz contigo uma aliança ligando-me a ti pelo juramento – oráculo do Senhor Javé – e tu me pertenceste.” (Ez 16, 7-8). Deus toma a iniciativa e devota amor pelo seu povo. O deseja e quer para si, o ama, mas antes o cobre e dá o faz descobrir o verdadeiro sentido de sua sexualidade.



Santidade consiste nisso: estar com Deus. É uma união para qual o homem se prepara toda a vida, adequando sua vontade com a do Criador, crescendo em virtudes e vencendo os males gerados pelo pecado original em nossa carne. O homem e a mulher vivem uma comunhão que se assemelha com aquela que Deus vive em seu íntimo, como Trindade. É uma união querida por Deus e é protótipo da união eterna com Ele. Por isso a identificação do amor fiel dos esposos com o amor que Cristo se entrega a humanidade, uma verdadeira aliança.




A essência da concepção Cristã da sexualidade está impressa em nós em forma de aliança que se torna plena e verdadeira quando identificada ao amor próprio do coração de Cristo que se une a nós de forma espiritual e carnal. Ele nos ama com todo o seu coração, sua vontade e inteligência, mas também nos ama com seu corpo. Para nos salvar consentiu que seu sacratíssimo corpo fosse despedaçado e continua a doa-lo na Eucaristia. Se somos Cristãos e o seremos eternamente é porque esse amor esponsal de Cristo é indissolúvel e fecundo: é para sempre e o fruto abundante destas núpcias foram celebrados na Cruz são consumados na Eucaristia.




No céu há um corpo humano, inteiro. É Cristo, que subiu. Na oração coleta da Solenidade da Ascenção do Senhor assim rezamos: “a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória”. Tem um homem no seio da Trindade e pelos méritos de Sua Paixão somos todos um nEle, participamos de sua divindade.

Ainda não de forma plena, mas já de modo real pelo batismo. Devemos ter consciência de que esse nosso Corpo é chamado a glória, está pela graça recebendo esplendor, mas ainda carrega as mazelas do pecado. Mesmo assim foi destinado ao céu para receber a dignidade que lhe é própria e uma vez lá, na eterna beatitude, nunca mais será perdida. As núpcias do Cordeiro são as nossas. Nossa vocação é esponsal, nosso lugar é com Ele e nEle por todo o sempre.