Jesus quis ou não fundar uma Igreja? Um breve estudo sobre a origem e a natureza da Igreja - Parte I

Atualizado: 29 de Abr de 2020


Não poucas pessoas conservam uma imagem de Jesus que o identifica com um místico filantropo, mestre da moral, cuja única preocupação era a de iniciar uma revolução pelo amor. Para estes, ele não amava a religião. Ele amava apenas as pessoas. Essa maneira de interpretá-lo, longe de constituir uma novidade, aparece no lastro da polarização entre o evangelho e o dogma, Jesus e a Igreja, a fé e a razão e foi encorpada significativamente pela crítica racionalista ao cristianismo de alguns ambientes acadêmicos no século XIX.


No bojo dessa discussão, não raras vezes, aparece também quem questione a sua intenção real em fundar uma Igreja. Nesse sentido, procuram destacar que o catolicismo, enquanto manifestação do cristianismo evoluído e institucionalizado, não corresponderia em nada ao projeto pessoal de Jesus, conforme a sua pregação do amor de Deus e às pessoas nos confins da Palestina do século I.


Quem admite que a mensagem de Jesus não anunciava imediatamente o advento da Igreja, mas do Reino de Deus e concorda com a frase de Loisy que se tornou popular - Jesus anunciou o Reino, e o que veio foi a Igreja - não sem certa dose de oportunismo, normalmente, divulga que, foi apenas com o Edito de Milão, em 313, sob o governo de Constantino e que deu liberdade de culto aos cristãos, que a Igreja Católica teria sido fundada. Para quem pensa assim, Jesus falava apenas do Reino de Deus e da solidariedade entre os seres humanos, demonstrados em sua bondade, acolhida, tolerância e coerência, e a Igreja Católica seria correspondente a um outro projeto: o do poder imperial.


Como forma de tentar aprofundar o tema e oferecer um mínimo esclarecimento sobre essa questão bastante espinhosa, é importante considerar o amplo panorama da missão de Jesus. Para tanto, apresentaremos em uma série de três postagens, pelo menos, seis argumentos com o fundamento neotestamentário sobre a relação entre a Igreja e a pregação de Jesus sobre o Reino de Deus. Evidentemente, não se pretende examinar exaustivamente o assunto, mas, naquilo que se poderá encontrar na sequência das publicações, se buscará tornar evidente não só qual é a origem da Igreja – o ministério de Jesus – como também qual o desejo de Jesus para ela, enquanto seu Corpo e novo povo de Deus na história humana


Jesus teve a “intenção de reunir o povo de Deus da era da salvação”.

Primeiro argumento: “segundo a concepção judaica, a atividade de reunir e purificar homens para o Reino, faz parte do Reino de Deus”. Jesus teve a “intenção de reunir o povo de Deus da era da salvação”. Não é possível compreender com profundidade a missão de Jesus se não se considera a expectativa messiânica do judaísmo palestinense do século I e a consciência messiânica do próprio Jesus histórico: assim como João Batista foi interpretado como o mensageiro do Messias que se aproxima e que reúne e purifica a comunidade escatológica e a Comunidade de Qumran se reuniu como comunidade escatológica, “toda obra de Jesus consiste em congregar o povo escatológico de Deus”. Jesus sabe que compõe um elemento inegociável de sua missão o fato dele ser o responsável por reunir os eleitos de Deus. Ao chamar os Doze, ao enviar em missão os 72 discípulos, ao pregar o evangelho, ao fundar a Igreja ele cumpre essa dimensão de sua missão.


Segundo argumento: É verdade que Jesus mesmo falou deste povo escatológico “utilizando muitas imagens, especialmente nas parábolas do crescimento”; todavia, com ele se impõe uma verdadeira virada cristológica. Isso significa que a proclamação de Jesus constitui uma autêntica passagem da mera expectativa soteriológica à novidade inaudita da realidade cristológica. Nas palavras do papa Bento XVI, “se torna patente que o logo da escatologia do fim próximo, que caracteriza João Batista e Qumram, transforma-se em Jesus no agora da cristologia”. E isso serve para demonstrar que, durante seu ministério, Jesus se identificou (e foi reconhecido) como “a obra de Deus em ação, sua chegada e o seu reinar”.


A proclamação de Jesus constitui uma autêntica passagem da mera expectativa soteriológica à novidade inaudita da realidade cristológica.

Ora, o Reino de Deus é o seu agir no presente, na sua própria pessoa: assim, se o Reino de Deus, cuja aproximação Jesus anuncia, é ele próprio e onde está ele, está o Reino de Deus. Isso equivale a dizer que a expectativa soteriológica de então foi superada e cumprida, de modo inaudito, pela realidade cristológica. Essa tese tem seu fundamento reforçado no fato de que Jesus “renovou o antigo povo de Deus, fazendo com que se tornasse novo povo, mediante a inserção dos que acreditam nele na sua própria comunidade (o seu corpo)”.


Na próxima semana, daremos continuidade ao nosso estudo sobre a origem e a natureza da Igreja.




Referências bibliográficas


RATZINGER, J. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.


RATZINGER, J. O caminho Pascal: curso de exercícios espirituais realizado no Vaticano na presença de S.S. João Paulo II. São Paulo: Edições Loyola, 1986.


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