Jesus quis ou não fundar uma Igreja? - Parte III

Atualizado: 29 de Abr de 2020

Na postagem anterior, segunda dessa nossa série, vimos duas situações importantes: a primeira diz respeito ao fato de que “a Igreja foi formada no mistério de Jesus” e, depois, aquele referente ao fato de Jesus compreender o ponto específico da sua Igreja é a comunhão de todos, não a partir de qualquer outra coisa, mas a partir d’Ele próprio. Na publicação de hoje, através da exposição do quinto e do sexto argumentos prometidos, veremos com a oração de Jesus tem implicada uma grave demonstração da consciência dos apóstolos sobre terem “formado uma comunidade que deriva de Jesus” e, ainda, que eucaristia é o definitivo “vínculo de união deste novo povo de Deus” que ele está inaugurando.




Quinto argumento: “os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine uma oração comum”. Num primeiro momento, essa passagem pode parecer algo trivial, entretanto, nisso está implicada, desde a condição mais embrionária daquele grupo, uma grave demonstração de consciência sobre terem “formado uma comunidade que deriva de Jesus”, que ora como ele, a partir dele e em torno dele. De fato, “eles ali estão como a célula inicial da Igreja, e nos mostram, ao mesmo tempo, que a Igreja é uma comunidade unida essencialmente pela oração – a oração com Jesus, a qual nos proporciona abertura comum para Deus”. A oração de Jesus, especialmente, na relação da atividade dele com a Igreja, constitui um tema notável: é nela, fundamentalmente, que Jesus se dirige a Deus como o seu Abbá e que se revela o caráter peculiar de Jesus, isto é, a sua consciência de Deus, que é “expressão da relatividade total de sua existência”.


A oração de Jesus, a que os discípulos pedem para tomar parte aparece, assim, como que uma espécie de delineador para a sua existência. Nela, transparece a sua fé. Nela, é originada toda a sua atividade. Nela, suas escolhas se definem, suas opções fundamentais vão sendo suportadas e, assim, “os acontecimentos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se desvela o seu mistério, aparecem como acontecimentos que brotam da oração”. Ao mesmo tempo, a oração de Jesus constitui uma espécie de espelho para o discípulo. Nela, se pode averiguar o quão semelhante ao Filho de Deus o discípulo é. Nela, se pode perceber quanto da própria história o crente já deixou para trás por causa do Evangelho. Nela, enfim, se pode enxergar se quem vive é, ainda, o fiel ou o próprio Cristo é quem vive nele (Gl 2,20). Não há dúvida, que “a oração de Jesus quer formar o nosso ser”.


A oração de Jesus, a que os discípulos pedem para tomar parte aparece, assim, como que uma espécie de delineador para a sua existência.

Sexto argumento: se por um lado, o Pai Nosso, a oração da comunidade de Jesus, constitui o primeiro elemento de distintivo da comunidade de Jesus, a ressignificação da Páscoa de Israel é o primeiro passo e o definitivo espaço do novo culto que ele institui na véspera da sua paixão: a eucaristia. Ora, os gestos e palavras na Última Ceia remetem à Antiga Aliança e às Profecias e, ao mesmo tempo, indicam que é o seu próprio corpo, o Corpo de Cristo, o centro do novo culto. Israel se tornou o povo de Deus pela celebração da páscoa e do Rito da Aliança do Sinai e o memorial destes dois verdadeiros atos fundantes do povo da Antiga Aliança se tornaram, por assim dizer, centro e garantia da sua unidade e mesmo da comunhão com Deus. Agora, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, ele explica, tem nesta nova refeição o definitivo “vínculo de união de um novo povo de Deus”.


Nesse sentido, assim como o tema do Reino de Deus penetra toda a pregação de Jesus e somente pode ser compreendido profundamente a partir da totalidade de sua pregação, da mesma maneira, a instituição da Eucaristia não pode ser encarada como um ato isolado. Na verdade, somente quem identifica nela a conclusão da Nova Aliança no Corpo de Cristo e a ela dá assentimento, pela comunhão (nesse mesmo Corpo), alcança, o entendimento sobre como os homens e as mulheres todos os tempos podem vir a se tornar participantes do Novo Povo de Deus. Agora, sai de cena o templo exterior, pois, “o corpo do Senhor, que é o centro da Ceia do Senhor, é o templo novo e único que funde os cristãos em uma unidade mais real do que aquela que um templo de pedra poderia oferecer”. Sobre isto, o papa Bento XVI escreve o seguinte:


A instituição da santíssima Eucaristia na noite anterior à Paixão não pode ser vista como um ato cultual qualquer, mais ou menos isolado. Ela é a conclusão de uma aliança e como aliança é a fundação concreta de um povo novo, que se torna povo por sua relação de aliança com Deus. Poderíamos também dizer: mediante o acontecimento eucarístico, Jesus incorpora os discípulos em sua relação com Deus e com isto também em sua missão, que está dirigida para os ‘muitos’, para a humanidade de todos os lugares e de todas as épocas. Esses discípulos se tornam ‘povo’ através da comunhão com Deus. A ideia de aliança do Antigo Testamento, que Jesus incorporou em sua pregação, recebe um novo centro: sermos um no Corpo de Cristo.

Daí resulta uma conclusão fundamental: já para Jesus essa comunhão da vida com Deus e o conhecimento profundo do mistério que ele veio revelar, através de sua mensagem e, fundamentalmente, através de sua própria pessoa, somente se tornam atuais pela comunhão do Novo Povo de Deus, que é a Igreja, sujeito vivo dessa comunicação. Entrar em contato com a autêntica mensagem de Jesus, presente em sua proclamação do Reino de Deus, pressupõe que se tome parte nessa comunhão.


Como se tentou assinalar, então, não guarda a verdade que diz que Jesus não amava a religião ou que não desejava fundar uma igreja. Esperamos que, assim, se tenha conseguido explicar e esclarecer o fundamento cristológico da Igreja e a sua relação indispensável, porque necessária, com a proclamação que Jesus faz sobre o Reino de Deus. De fato, da mesma maneira como não se excluem mutuamente o Jesus da história e o Cristo da fé, o mesmo se pode afirmar da proclamação do Reino de Deus e da Igreja, que é o corpo de Cristo, o Novo Povo de Deus. Esta maneira de pensar encontra eco nas palavras de João Paulo II, em sua Carta Encíclica sobre a validade do mandato missionário: “mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a Igreja, todavia, está indissoluvelmente unida a ambos”.


Referências bibliográficas


RATZINGER, J. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.


RATZINGER, J. O caminho Pascal: curso de exercícios espirituais realizado no Vaticano na presença de S.S. João Paulo II. São Paulo: Edições Loyola, 1986.


RATZINGER, J. Introdução ao Cristianismo: preleções sobre o Símbolo Apostólico com um novo ensaio introdutório. São Paulo: Edições Loyola, 2005.


RATZINGER, J. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração. 2. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016.


JOÃO PAULO II, PP. Carta Encíclica Redemptoris missio: sobre a validade permanente do mandato missionário. São Paulo: Paulinas, 1991.

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