Jesus quis ou não fundar uma Igreja? Parte II

Atualizado: 29 de Abr de 2020

Retomando o nosso estudo sobre se Jesus quis ou não fundar uma igreja, daremos continuidade à exposição de argumentos, com base no Novo Testamento, que indicam não só sua vontade em fundar a Igreja, como também em deixar bem delineado o que ele mesmo desejava que ela fosse historicamente. Na publicação anterior, vimos que Jesus teve a “intenção de reunir o povo de Deus da era da salvação” e que com ele se impõe uma verdadeira virada cristológica, ou seja, que a proclamação de Jesus representa a autêntica passagem da mera expectativa do Antigo Testamento para a novidade inaudita da realidade de Cristo. Passemos agora ao terceiro e quarto dos seis argumentos que prometemos apresentar.


A proclamação de Jesus representa a autêntica passagem da mera expectativa do Antigo Testamento para a novidade inaudita da realidade de Cristo.

Terceiro argumento: “Jesus nunca se entende como um indivíduo isolado” e toda sua obra consiste em reunir o povo escatológico para o Reino de Deus. Aqui, já se pode evidenciar que não há espaço para qualquer contradição entre a proclamação do Reino de Deus, como centro do interesse e da atividade de Jesus, e a Igreja; aliás, “a Igreja foi formada no mistério de Jesus”. Nesse sentido, sendo Ele, pois, o Reino de Deus prometido, anunciado e n'Ele mesmo realizado, aparece a Igreja como o povo escatológico, de igual modo, prometido, anunciado e reunido por Ele – mas, não somente e, principalmente, n'Ele. Segundo essa maneira de pensar, isso esclareceria a natureza profunda da Igreja, uma vez que “o dinamismo de se tornarem Um de mútua aproximação através do encontro com Deus, é, para Jesus, específico do novo povo de Deus”.




Quarto argumento: Definitivamente, Jesus compreende que aquilo que constitui o ponto específico deste povo escatológico é a comunhão de todos, não a partir de qualquer outra coisa, mas a partir d’Ele próprio. Sobre isso, o papa Bento XVI escreve o seguinte: “o mais íntimo ponto de reunião deste novo povo é Cristo: este povo só se tornará verdadeiramente povo enquanto for chamado por Cristo e responder à sua chamada, à sua Pessoa”. Essa condição pode ser destacada, ainda, pela condição histórica assumida pelo grupo de Jesus. Definitivamente, a sua comunidade nunca foi um grupo amorfo: seu centro era o grupo dos Doze, constituído por Jesus para ser Doze, estar com ele e serem enviados em missão, e a ele se acrescenta o círculo dos 70/72 discípulos.


Ora, este símbolo dos Doze é uma clara referência às tribos de Israel e manifesta a intenção de Jesus em constituí-los o fundamento do povo da Nova e Eterna Aliança. Os 70/72 discípulos são uma referência à universalidade da mensagem e da obra de Jesus, pois esse era para o judaísmo o número das nações da terra. Assim, “Jesus se apresenta como o patriarca de um novo Israel, cuja origem e fundamento os Doze devem ser”. É nesse mesmo sentido que, aliás, não se poderiam expressar de modo mais claro os inícios de um novo povo, um povo que se forma agora “já não mais por descendência física, mas através do estar com Jesus”.


Com o grupo dos apóstolos, sobre os quais Jesus funda a sua Igreja, é iniciado o povo que se forma agora “já não mais por descendência física, mas através do estar com Jesus”.

Na próxima publicação, pretendemos concluir este nosso estudo sobre a origem e a natureza da Igreja, com a apresentação dos dois últimos argumentos extraídos do Novo Testamento.




Referências bibliográficas


RATZINGER, J. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.


RATZINGER, J. O caminho Pascal: curso de exercícios espirituais realizado no Vaticano na presença de S.S. João Paulo II. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

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