“Fé e Futuro” de Joseph Ratzinger

Atualizado: 26 de jan.



Escrito em 1969, fruto de conferências radiofônicas da emissora do Vaticano, o livro, dividido em cinco capítulos, apresenta reflexões do então Padre Joseph Ratzinger, na época, professor catedrático da universidade de Ratisbona. Ele, que teve uma vida marcada pelo estudo, doação e amor a Igreja é sem dúvidas o mais egrégio teólogo católico contemporâneo e pode ser colocado ao lado de Balthasar, Congar e Karl Rahner como um dos grandes nomes do Concilio Vaticano II, embora na época tenha sido apenas um perito. Sua opera Omina supera muitos teólogos avaliados como grandes pela história devido a diversidade de temas e profundidade teológica. Essa sua obra versa sobre o tema da fé e o futuro, assunto em alta, principalmente nesse período em que toma conta do mundo ocidental o pensamento positivo-científico responsável em grande parte por gerar uma crise do presente e uma grande fascinação pelo futuro.


Ele começa apresentando que depois da virada antropológica e a supervalorização da ciência e da técnica o homem dá largos passos em direção a um dito “progresso” do pensamento. Nesta trilha o mistério, objeto de estudo e da oração dos teólogos, perde espaço. Que essa evolução é marcadamente um distanciamento dos problemas do mundo ao problema de Deus. Nesse interim, Augusto Comte é uma grande voz desse movimento quando relega Deus a um lugar apenas mítico tal como os deuses homéricos. E que é justamente esse pensamento que começa ocupar os círculos mais amplos do pensamento. Diante disso, se faz a pergunta sobre o lugar da fé cristã nesse mundo, se ela não estaria superada pela “evolução intelectual”.


Nota, Ratzinger, que há uma ruptura entre os mundos da fé e do conhecimento dando-nos algumas linhas gerais dos pontos críticos: a primeira se encontra logo na primeira página da bíblia, na certa contradição da origem do mundo bíblico e da cientifica. Mesmo que justificando não ser uma livro de ciências, mas simbólico, o mal-estar já foi criado. Esta questão é apenas um pontapé para tantas outras aparentemente inconciliáveis como a história da queda, o paraíso, o sofrimento e a morte. Essas questões angustiam a consciência geral do homem de fé moderno e afasta aqueles que já a perderam.


Em algumas páginas o autor se debruça a responder as aparentes contradições do dado da fé com os dados apontados pela ciência. Mostra que uma ciência coerente e guiada por uma filosofia segura consegue alcançar, mesmo do seu ponto de vista as verdades da fé e as inconsistências das novas doutrinas que procuram ocupar o lugar da fé revelada. Aclara que a fé, em sentido cristão, não é um sistema misterioso de conhecimento, mas uma atitude da existência, uma decisão sobre a sua direção. É nesse ponto que se coloca outra questão fundamental: qual a direção fundamental da existência? A resposta dessa questão vai além do que se pode apalpar e manusear. Nisso, são grandes exemplos os homens de fé, os santos, que materializam esta resposta numa compreensão que somente fé pode gerar.


É um sentido dado por um amor que não pode ser medido ou experimentado. E isso é capaz de unir a um todo aquilo que fora escrito na revelação, se materializou em uma Pessoa, o Cristo e continua a ser contemporâneo nos Santos.

A fé de Abrão é a mesma de Tereza de Lisieux e Vicente de Paulo. Essa fé do primeiro se encontra com a do último e chega até nós como promessa. Por sua vez a fé no Cristo Ressuscitado é a mesma de Abraão e idêntica à que chega até nós no futuro, só que este futuro transcende o limite da morte que é a própria antítese para a relação do homem com o futuro.


Existe, continua na sua reflexão o padre Ratzinger, uma contradição, um contrassenso no homem moderno: se ele não conceber um futuro que transcende o limite da morte o próprio presente se torna insuportável. Quando na américa, durante a Segunda Guerra, foi apresentada uma peça musical sobre o fim do mundo, ela teve um efeito tão realístico que muitos se suicidaram. Homens tiraram a vida para não morrer. O suicídio para fugir da morte ilustra muito bem esse paradoxo. Aqui a fé tem um papel importantíssimo para a humanidade. A questão da eternidade é essencial para manter a esperança.


Há, porém, aqueles que acabam por exilar a fé ao campo mítico, desconsiderando todo seu caráter lógico, filosófico, antropológico e histórico, acostumando-se viver com problemas sem solução, se entregam a melancolia. Estes fazem esforços gigantes na produção de linhas de pensamento problemáticas que afastada da fé reduzem o próprio homem a mera matéria e as relações a simples troca econômica.


A negação da fé é consequentemente causadora da negação do homem por meio de sua fragmentação. Uma pergunta necessária que se faz é o que significa crer? A constatação que se chega é que não significa um sistema de meio de conhecimento, mas uma decisão da existência, um viver para o futuro que Deus me outorga para além do limite da morte.

É inevitável o choque entre o efervescente mundo filosófico independente, que cada vez mais abandonou a religião e a fé. Se antes a filosofia possibilitava uma imagem de mundo em que a fé podia ser sentida e ocupava um lugar de destaque agora, depois da grande transição feita pelas ciências exatas, Deus foi metodicamente excluído e com ale todo o âmbito da fé. Aquela unidade de pensamento que se dava pela metafisica encontra em Kant um rompimento, assim a fé não encontra mais no mundo filosófico moderno um lugar onde possa de ancorar. Consequentemente a moral que deriva da religião era reduzida a simples sentenças e sentimento. Criava-se. Por assim dizer uma nova forma de religião, uma religião positiva, um modelo independe de falar da realidade e dos problemas em nossa volta, de Deus e das coisas elevadas, não mais com meditações metafisicas, mas particular ao espírito humano.


Há nesse movimento um corte na ontologia da própria religião. Ela não se caracteriza mais pelo que é próprio dela, mas apenas sentimento ou piedade. Os seus conteúdos são apenas formas de consciência e não tem nada de objetivo. A piedade ocupa o lugar da fé. O importante aqui não é o ser, mas o fazer: não preciso conhecer as sagradas escrituras, mas na minha relação com Deus eu posso escrever a minha própria. Nasce um modelo baseado na consciência das coisas e não em sua realidade que é negada. No auge desse momento aparece autores como Schleiermacher que quando escrever sobre a figura de Jesus o descreve como sendo apenas um homem com a mais alta consciência de Deus, não como Deus. No lugar do ser entrava consciência. Consequentemente não se tem o fim da religião que é modificada, mas o fim da fé e com ela também o fim do cristão reduzido a uma forma madura de consciência religiosa.


Noutra abordagem aparece Karl Barth que se opõe tanto a posição de Schleiermacher como a da Igreja católica. Para ele a fé não precisa se apoiar na razão e não deve ter nenhum ponto de apoio. E que isso somente violenta tanto a razão como a fé. Com a visão de Barth se tem agora uma nova concepção de fé: uma fé que não precisa ser fundamentada. Esse pensamento permite a Barth ser ao mesmo tempo radicalmente moderno e radicalmente crente.


Estamos aqui diante de um grave problema: se fé é o agir paradoxal de Deus em nós, fica claro que o homem jamais poderá prová-lo. Nessa lógica conclui-se que o homem partindo de si próprio só pode chegar a ser ateu, sem órgão para o Divino. Sua religião é reduzida a uma forma de egoísmo. Depois da retirada de Schleiermacher para a piedade subjetiva a fé aparece de novo em sua nova objetividade, em seu caráter de indisponibilidade para o homem. E assim dar-se início a teologia contemporânea. Os espíritos mais críticos abandonaram o campo dos liberais e começaram a seguir Barth porque este conseguia ser ao mesmo tempo crítico e cristão.


A catástrofe já estava desenhada e a caminhada da vaca para brejo feita. Uma das mentes mais fascinadas pelo pensamento de Barth era sem dúvidas Rodolfo Bultman. Ele seguiu os mesmos passos dessa nova teologia até chegar a ponto de elevá-la a uma espécie de neo-ortodoxia que é de encher os olhos ao mesmo tempo que carece de fundamentação. Essa nova dogmática eclesiástica tem um outro caminhado iniciado por Bultmann seguido por Bonhoeffer e Doroteia Solle, os teólogos da morte de Deus.


Podemos resumir a esteira desse pensamento da seguinte forma: o homem é de per si ateu. Nada sabe sobre Deus. E tudo aquilo que ele disse a esse respeito é pernicioso. A religião é superstição e idolatria. Há uma diferenciação entre religião e fé, sendo essa segunda puro paradoxo: o paradoxo de falar de Deus sem nenhum sem nenhum ponto de apoio. No fim esse tipo de pensamento vai se alinhar com o Marxismo e se colocar como grande crítico da religião. Jesus é reduzido apenas uma figura histórica e suas ações justificadas a uma criação de uma espécie de herói.



Cabe, ao leitor da obra a essa altura, diante de tudo que fora dito se perguntar: qual o lugar da religião nesse novo início teológico conturbado e negativo? Ainda há espaço para afirmar o cristianismo? Antes de responder essas questões, nos pede o cardeal Ratzinger, é preciso colocar algumas questões no seu devido lugar. Primeiro deve-se reconhecer inequivocadamente que não podemos provar a necessidade de Deus para o homem na mesma forma que podemos verificar uma descoberta cientifica. Se não fizermos isso iremos direto para o mesmo fracasso do pensamento filosófico da época moderna que que levou a uma ampla destruição da filosofia. Aqui tem como plano de fundo o problema do método que confunde uma ciência humana da própria filosofia reduzindo-a ao verificável.


A partir de Kant esse caminho ganha mais força. O seu esforço de considerar a metafisica como período pré-crítico e ao colocar a “coisa em si”, ou seja, a profundeza essencial do real a margem da filosofia a reduziu simplesmente a análise das condições de possibilidade do conhecimento humano, portanto à explicação das leis da consciência humana. O destino da filosofia vai se restringindo, mesmo que alguns homens ainda tentem resgatá-la fazendo a passagem para o todo da realidade como Fechte, Hegel e Schelling quando tentam colocar o ponto de vista da razão absoluta e abranger a razão do ser no seu conjunto. Mas esse mesmo esforço de compreender o ser como razão levou a Feurbach e Marx ao contrário: contestar a razão que penetre tudo e absolutizar a matéria. A consequência disso tudo é a conclusão que chega Marx: não há nenhuma verdade permanente que repouse numa determinação espiritual já existente nas coisas. Para ele verdade nada mais é que uma mudança, logo é tarefa do homem intervir nesse processo e mesmo criar a verdade. Enfim o disparate: a verdade vem da medida do homem e torna-se um produto seu.


Esses caminhos filosóficos nos legou muitos problemas levando a Heidegger a querer voltar para Sócrates, para uma percepção do ser. A Sartre a sua maneira segue a mesma trilha apresentando o teatro. Até que a voz dos existencialistas quase foi calada. Em seu lugar chega os partidários de Wittgenstein e os estruturalistas que restringem agora a filosofia a consciência e a linguagem humana. Em meio a essa dilaceração do pensamento no momento em que se tenta acomodar a filosofia no cânon das ciências exatas o “homem absurdo” que apenas sabe o que aconteceu, mas não seu sentido, está trancado em sua consciência e não pode ir além dela. Comte fecha a conta absolutizando a positividade e impossibilitando não só a questão sobre Deus, mas também sobre o homem e a realidade. Parece que somente a teologia não tem lugar no cosmos, mas diante desse dilema da existência também o homem perde o seu. A frase de Wittgenstein conclui muito bem esse movimento: “temos que calar sobre aquilo que não podemos falar”. Não se sabe de Deus, nem do homem, tudo agora é movimento.


No processo cada vez mais rápido da evolução histórica, colocam-se ao homem possibilidades extremas, mas também perigos extremos. Como bom agostiniano Ratzinger reflete sobre o hoje e o coloca no meio, como o novo, entre o passado e o futuro. O presente pode erroneamente ser definido por duas motivações contrárias: se for apenas passado se afunda nele, se for apenas futuro pode por sua vez enterrar muita coisa empoeirada, também coisas preciosas e sãs. O futuro tornou-se tão esperançoso como inquietante. Diz que o homem de hoje olha para o futuro e o caracteriza como progresso, não como tradição; esperança, não como fé. Que este homem percebe um certo romantismo com relação ao passado, mas isso fica somente a cargo da história. Essa evolução que experimentamos se apresenta, não como um presente do alto, mas como um fruto do trabalho duro, de agir planejador, calculador e inventivo. Por isso a esperança é traduzida como um agir da própria força: o homem espera a salvação de si mesmo.


E que lugar tem a Igreja nesse mundo? Como será o futuro da Igreja? A estas perguntas que se faz, Ratzinger responde de forma profética: a igreja passará por um processo de apequenamento. Ele aponta para os frutos do tempo, para os problemas que estavam começando a aparecer na Igreja atual (lembremos que ele escreve isso na década de 1960) e nos diz: ameaçada pela tentação de reduzir os padres em “assistentes sociais” e sua obra em mera presença política. Desta crise atual, surgirá uma Igreja que terá perdido muito. Ficará pequena e terá que recomeçar mais ou menos das origens. Não será mais capaz de morar nos prédios que construiu nos tempos da prosperidade. Com a diminuição de seus fiéis, perderá também grande parte dos privilégios sociais. Recomeçará pelos pequenos grupos, pelos movimentos e por uma minoria que recolocará a fé no centro da experiência pessoal. Será uma Igreja mais espiritual, que não pleiteará um mandato político, namorando ora a Esquerda e ora a Direita. Será pobre e se tornará a Igreja dos indigentes.


Os homens no fim, aos poucos, depois de um longo processo repleto de dificuldades perceberão que o estão morando num mundo de indescritível solidão e tendo se esquecido de Deus notarão o horror de sua pobreza. E ali estará a Igreja, conservando a esperança, esta será um pequeno rebanho de crentes que apontará para um resposta para os mais íntimos questionamento humanos.


Depois de sua gigante trajetória como professor, teólogo, prefeito da congregação para a Doutrina da Fé e Romano Pontífice, o Magno Joseph Ratzinger manteve este pensamento ao longo dos anos. Não obstante a marca de suas batalhas tiveram sempre como fundo a luta contra o Modernismo, o Relativismo, a Teologia da Libertação o individualismo progressista e tantas outras visões de mundo neoiluministas e marxistas que se apresentaram como grandes opositoras da Igreja, do homem e de Deus. É muito claro a coerência e exatidão de seu pensamento presente em sua magnifica opera ominia que nos deixa como legado e que a história, com justiça o honrará como arauto da verdade.



Rezenha do livro "Fé e Futuro" de Joseph Ratzinger. Título original em alemão: Glaube unc Zukunft. Livro publicado em 1970 traduzido e publicado pela editora Vozes em 1971.