Exageros, alarmismos e escuta: o sínodo da amazônia e seu instrumentum laboris

Atualizado: 8 de Nov de 2019

É evidente que, como fiéis católicos, todos devemos nos manter alertas para os momentos e eventos importantes da história do mundo e da Igreja. Traço característico da fé católica, a preocupação com um mundo mais justo sempre ocupou os horizontes de nossa fé e espiritualidade. E as atividades relacionadas ao Sínodo Amazônico exigem que se eleve esse tom de cuidado e preocupação. Muitos têm insistido, por exemplo, que o Instrumentum Laboris da próxima Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica é uma manifestação alarmante da confusão, do erro e da divisão que afligem a Igreja hoje. Entretanto, devemos evitar alarmismos desnecessários.



Todo instrumento de trabalho de um Sínodo é constitutivo apenas dos primeiros movimentos de um longo itinerário. Nele, estão formalizados os elementos de uma "escuta" inicial, que é apenas o primeiro item do processo sinodal. E, no caso do Instrumentum Laboris do Sínodo da Amazônia, o que se tem até agora é somente a escuta da comunidade local. De novo: essa é só a primeira etapa e, por isso, mesmo reconhecendo a presença de "elementos heterodoxos" no documento, qualquer sinal de desespero é injustificado, afinal de contas, um Sínodo é muito maior que seu Instrumentum Laboris. E aqui, uma importante condição deve ser considerada: do contexto de atualização da eclesiologia do século XX, a Igreja viu despontar, como luzes no debate eclesiológico, os conceitos de diálogo, comunhão, participação, presença, solidariedade e serviço e, também nesse ambiente, a recuperação da ideia da sinodalidade, seu significado e o seu modo de articulação eclesial, se impôs como um caminho de irreversível seguimento para a Igreja de nosso tempo. Compreender e expressar adequadamente a dimensão sinodal da Igreja em vista da praxe sinodal é tarefa que se impôs nessa nova etapa de recepção do Concílio Vaticano II.


Por ocasião da comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, em breves palavras, o Papa Francisco bem resume a dinâmica própria desse tipo de evento:


O Sínodo dos Bispos é o ponto de convergência deste dinamismo de escuta, efetuado a todos os níveis da vida da Igreja. O caminho sinodal começa por escutar o povo, que 'participa também da função profética de Cristo', de acordo com um princípio caro à Igreja do primeiro milênio: 'Quod omnes tangit ab omnibus tractari debet'. O caminho do Sínodo continua escutando os pastores. Através dos padres sinodais, os bispos agem como autênticos guardiões, intérpretes e testemunhas da fé de toda a Igreja, que devem saber cuidadosamente distinguir dos fluxos frequentemente mutáveis da opinião pública. Na véspera do Sínodo do ano passado, afirmava: 'Para os padres sinodais pedimos antes de mais nada, do Espírito Santo, o dom da escuta: escuta de Deus até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade a que Deus nos chama'. Finalmente, o caminho sinodal culmina na escuta do Bispo de Roma, chamado a pronunciar-se como 'Pastor e Doutor de todos os cristãos': não a partir das suas convicções pessoais, mas como suprema testemunha da fides totius Ecclesiae, 'garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja'. O fato de o Sínodo agir sempre cum Petro et sub Petro – por conseguinte, não só cum Petro, mas também sub Petro – não é uma restrição da liberdade, mas uma garantia da unidade. Com efeito, o Papa é, por vontade do Senhor, 'perpétuo e visível fundamento da unidade, não só dos bispos, mas também da multidão dos fiéis¹.

Não deixemos de considerar essa dinâmica próprio do Sínodo do bispos: com a realização do evento sinodal, teremos a escuta da Tradição, do Magistério e da Escritura; nele, se procura escutar o sensus fidei; nele, se vai buscar escutar a vontade de Deus; nele, se decide, enfim, não pelo que a maioria quer (isso é democracia), mas, sim, pelo que o "Espírito diz à Igreja" (cf. Ap 2,7). E, ainda: por último, cabe a Pedro " confirmar" (cf. Lc 22,32) se as propostas apresentadas estão ou não de acordo com a fé e a Revelação. A Igreja possui uma estrutura hierárquica e sinodal desde a época apostólica e o que nela se persegue é sempre a vontade de Deus. Esse itinerário sinodal possui fundamentação bíblia, respaldo na tradição, foi reformado pelo Magistério com São Paulo VI e confirmado por todos os papas depois dele. Aliás, todo o itinerário que se deve percorrer para a validade de um instituto sinodal, aparece bem delineada pelo papa Francisco nesse seu texto acima mencionado. Um processo sinodal válido ouve a comunidade local, seus pastores, os bispos reunidos em assembleia e, evidentemente, tem suas conclusões confirmadas ou não pelo papa. Quando o tema é vinculante para toda Igreja não tem poder decisório apenas uma parte da igreja local. Quem quer romper com a fé da Igreja e validar elementos não ortodoxos em qualquer nível até pode usar a metodologia sinodal, mas não precisa dele pra fazer isso. Basta olhar a história da Igreja: um cismático não precisa de um sínodo para romper com a Igreja.



Também Bento XVI celebrou sínodos sobre regiões específicas. Suas conclusões podem ser encontradas nas Exortações Apostólicas pós-sinodais Ecclesia in Medio Oriente (sobre a Igreja no Oriente Médio) e Africae munus (sobre a Igreja na África). Nelas, também temos questões culturais, religiosas e sociais que foram enfrentadas. Talvez, agora, esteja fazendo diferença o fato de muitos tratarem a questão com um peso e intromissão ideológicos como nunca havíamos conhecido.



¹http://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151017_50-anniversario-sinodo.html


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