Do matrimônio na sociedade atual

Atualizado: 6 de Jun de 2020




Uma das marcas características da sociedade contemporânea é a sua capacidade de optar pelo transitório, pelo imediato e pela aparência. Esses três elementos apontam para uma realidade anterior, a negação da verdade tal qual se apresenta, o que consequentemente abre margem para uma crença numa promessa de pretensa liberdade para ser fazer o que se quer, a qual se confunde com o dar vazão aos instintos sem nenhuma valoração.

Desse modo, cada vez mais as pessoas vão se tornando escravas de si e de todo um sistema que utiliza disso para implodir o homem em sua dignidade, a família enquanto comunidade de amor e de valores, e a relação com Deus, o que em última instancia conduz a sua negação total.

Sem nenhum referencial de verdade é muito fácil ao homem, cuja vontade tende naturalmente ao bem, se voltar para aquilo que é inferior e passageiro, confundindo a felicidade com o gozo do prazer sensível, o que leva a um círculo vicioso de uma busca desenfreada que nunca chega a um ponto de plena satisfação. Esse fato se manifesta de diversas formas, sobretudo no modo de enxergar o outro. Em outras palavras, as pessoas passam a serem vistas como objeto de prazer, de poder e de status, abrindo, por conseguinte, as portas para uma decadência social cada vez mais intensa.

As mídias sociais tem de modo massivo externado essa sociedade do parecer ser, onde tudo é perfeito, onde todos são peritos em todos os assuntos, onde qualquer tipo relações são totalmente livres e benéficas, escondendo o patente apodrecimento ou de modo mais enérgico um padecimento interior.

É nesta sociedade que os futuros casais, futuros pais e filhos estão inseridos. Esse fato leva a uma preocupação de como estão sendo realizados os matrimônios, e como tem sido a sua vivência na prática. Poucos são os casais que tem uma visão clara e integral acerca do matrimônio como imagem de uma união perfeita de Cristo com a sua Igreja, união tal que abarca uma série de outras uniões. Este desconhecimento desemboca nos inúmeros casamentos pautados no interesse, no dinheiro, na obtenção de status, distanciando-se daquilo que deve ser o berço de uma concretização de uma comunidade de vida e de amor. Posto isso, a cultura do descarte tão presente na referida sociedade, adentra no seio conjugal e familiar.


Assim sendo, na contramão de tudo isso, vale traçar aqui algumas considerações muito importantes acerca do matrimônio, da vocação humana e sua autorrealização.


Destarte, podemos afirmar que o matrimônio diz respeito a uma união entre um homem e uma mulher mediante um vínculo gerado a partir do consentimento de ambos, de modo a constituírem uma só natureza. Este vínculo não é um mero contrato social pautado nos diversos elementos característicos da sociedade atual anteriormente elucidados, senão uma vocação, já que cada indivíduo desde a criação do mundo carrega consigo uma tendência natural ao pacto conjugal.


Advém do consentimento que gera vínculo não apenas a exclusividade, mas também a perpetuidade. É justamente nesse sentido que Javier Escrivá em El matrimonio como unión en el ser y como despliegue existencial de la unión compreenderá que a indissolubilidade está radicada na ordem do ser, no formar “uma só carne”. Há, aqui, segundo o autor uma conformação não apenas na ordem do agir, mas na ordem ontológica.

Sob este viés, é possível compreender o matrimônio como um consórcio, em que ambos os cônjuges tem o mesmo fim, a santidade, isto é, sendo, pois, o matrimônio uma vocação, ambos se salvam por meio dele, e, com isso, geram uma comunidade de vida e de amor.

A partir dessa compreensão do casamento como união das partes de cada consorte, mediante um vínculo gerado pelo consentimento de ambos, é possível depreender que tal vínculo une também os aspectos fisco, biológico, psicológico, espiritual, dentre outros elementos.


Nesta mesma direção, Juan Ignacio Bañares em La preparación al matrimonio. Comentario al discurso de Benedicto XVI al Tribunal de la Rota Romana de 2011 argumentará que não há um matrimônio de vida e um matrimônio de direito, senão que um único e mesmo matrimônio, constituído por um vínculo jurídico real entre um homem e uma mulher, sob o qual se sustentam a dinâmica conjugal autêntica de vida e de amor. Neste pacto, segundo o autor, coexistem o humano e o divino, o amor e a justiça, a liberdade e o compromisso,o dom e a dívida, sem contradições.

O matrimônio é o meio mediante o qual os cônjuges perseguem a perfeição recíproca, ou seja, é um dar-se a si mesmo em todos os planos da vida, de modo a compartilharem não apenas das exterioridades, mas viverem uma verdadeira relação de intimidade. É nesse sentido que se pode afirmar que é próprio do matrimônio a dinâmica do "ser para o outro".

Brotará dessa relação de intimidade verdadeira o conhecimento de cada cônjuge tal qual ele o é, seus defeitos e suas virtudes. Assim, esse deixar-se tocar na intimide viabilizará o rompimento com aquilo que vício e defeito, permitindo, dessa forma o desenvolvimento das virtudes. Isso ocorre mediante essa relação de vida e de amor. Nisto consiste o crescer, enumerado em Gn 1, 22: " Deus os abençoou e disse, crescei e multiplicai-vos, enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. Ou seja, concerne a uma interação de complementaridade e fecundidade, mediante a qual um cônjuge auxilia o outro a ser mais quem ele é, abrindo as portas, dessa forma, para um mútuo aperfeiçoamento.


Por fim, Bento XVI, em seu discurso por ocasião da inauguração do ano judiciário do tribunal da rota romana aborda, dentro dessa perspectiva supraexposta, que o verdadeiro matrimonio pode ser compreendido como uma constituição de um vínculo de justiça e de amor entre um homem e uma mulher, tendo por características a unidade e a indissolubilidade, além de dever ser orientado e/ou ordenado para o bem dos consortes e para a procriação e educação dos filhos, constituindo, assim, entre os batizados, um sacramento da nova Aliança, o qual encontra em Cristo, a sua força. Ou seja, no vínculo de Cristo com a sua esposa, a Igreja.



Francisco Évison Isaías Lopes


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