DO ESTÁBULO AO CALVÁRIO

Pensando na história da salvação, um ponto importantíssimo é o mistério da encarnação do Verbo no seio da Virgem Maria. Quando o anjo apareceu a Maria, Deus estava anunciando seu amor por toda a nova humanidade. Era o início de uma nova terra, e Maria tornou-se um "Paraíso cercado de carne a ser cultivado pelo novo Adão". Assim como no primeiro jardim Eva trouxe a destruição, também no jardim de seu ventre Maria traria a redenção. Ao fim dos nove meses, o lugar adequado para que nosso Senhor nascesse era Belém, que quer dizer "Casa do Pão". Mais tarde, Ele diria:


"Porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo." (Jo 6,33), "Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome." (Jo 6,35).

Tendo Jesus em seus braços, Maria baixou os olhos ao céu.


No lugar mais imundo do mundo, um estábulo, nasceu a pureza. Ele que mais tarde seria abatido por homens agindo como animais, nasceu entre animais. Ele, que chamaria a Si mesmo de "o pão vivo que desceu do céu", foi posto numa manjedoura, literalmente, um lugar de comer. Séculos antes, os judeus tinham adorado ao bezerro de ouro; os gregos, ao jumento. Os homens prostravam-se diante deles como diante de Deus. O bezerro e o jumento agora estavam presentes para fazer sua reparação inocente, prostrando-se diante de Deus. Um estábulo seria o último lugar no mundo onde alguém procuraria por Deus. A divindade sempre está onde menos se espera.

A manjedoura e a Cruz, portanto, são as duas extremidades da vida do Salvador! Ele aceitou a manjedoura porque não havia lugar na hospedaria; aceitou a Cruz porque os homens disseram: "Não teremos este Homem como nosso rei". Repudiado na entrada, rejeitado na saída, foi posto num estábulo de estranhos no princípio, e num túmulo de estranhos ao final. Um boi e um jumento rodeavam seu berço em Belém; dois ladrões ladeavam sua Cruz no Calvário. Ele foi envolto por faixas no sepulcro - faixas que simbolizam as limitações impostas à Sua Divindade quando assumiu a forma humana.

Os pastores que cuidavam do rebanho nas redondezas ouviram dos anjos:

"Isto vos servirá de sinal, achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura" (Lc 2, 12).

Ele já estava carregando a Cruz - a única que um bebê podia carregar, a cruz da pobreza, do exílio e da limitação. Seu intento sacrificial já brilhava na mensagem que os anjos cantavam nos montes de Belém:

"Hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor" (Lc 2, 11).

Somente dois tipos de pessoas encontraram o bebê: os pastores e os sábios; os simples e os instruídos; aqueles que sabiam que nada sabiam e aqueles que sabiam que não sabiam de tudo. Ele nunca é visto pelo homem de um livro só; tampouco pelo homem que pensa que sabe. Nem mesmo Deus pode dizer algo ao orgulhoso. Somente o humilde pode encontrar Deus!

Belém é a representação do Calvário. Não era o nascimento que projetava sombra sobre sua Vida e assim o levara à morte; era, antes, a Cruz que estava lá desde o início, e esta lançava sua sombra retroativamente ao nascimento.

(Fragmentos do livro: Vida de Cristo, Vol. I. de Fulton Sheen)

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