Da desconfiança à decadência

Atualizado: 6 de Jun de 2020




Tomando por pano de fundo os relatos do livro do Gênesis, podemos identificar que o autor sagrado tem uma grande sensibilidade ao abordar os elementos da psicologia humana e a sua interrelação com a origem do pecado e do mal. Sendo assim, é interessante perceber o modo como ele vai entrelaçando os acontecimentos até culminar na queda e na perda dos bens dados inicialmente por Deus aos primeiros pais.


No primeiro relato, podemos perceber que Deus vai criando todas as condições de possibilidade para a vida do homem sobre a terra, de modo que só depois de estabelecidas tais condições, é que ele cria este referido ser. Em Gn 1, 29 podemos ver que aos homens Deus dá os grãos e as árvores, e aos animais ele dá as ervas.

Há aqui um intuito teológico, denotando assim que, ao sair das mãos de Deus tudo está em perfeito equilíbrio. Em outras palavras, quando o mundo foi criado tudo estava em perfeita harmonia.

Nos versículos 16 e 17 vemos uma cláusula, um preceito. Deus colocou o homem no jardim do Éden para que ele cuidasse, dominasse e usasse de tudo o que lá havia, contudo, o dono sempre foi o próprio Criador. Não existe uma explicação lógica para o fato do homem não poder comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A prova aqui é de confiança. A liberdade, nesse sentido desempenha um papel fundamental. De fato, ao criá-lo Deus lhe constituiu livre. Ao estabelecer tal proibição Ele não retirou de Adão a liberdade, mas apontou claramente onde havia um grande perigo.


É possível mencionar ainda, que desde sua origem o homem compreende que a dinâmica do viver transcende ao fato do existir. Para o homem viver é preciso que ele se relacione. É nesse sentido que Deus percebe a existência de um vazio em Adão: “não é bom que o homem esteja só”.

Como primeira tentativa para solucionar a fraqueza da solidão do homem Deus criou os animais, e depois fez uma auxiliar que lhe correspondesse, que gozasse da mesma dignidade. Por mais que os animais servissem de companhia para o homem, eles não eram capazes de ocupar esse espaço que somente outro ser humano era. O homem se reconhece olhando no rosto de seu semelhante. É justamente sob esse viés que Deus criou a mulher enquanto retirada da costela do homem, apresentando essa relação de complementaridade.


Posto isso, segue-se que esse texto manifesta que existia no plano da criação uma dependência do homem à vontade de Deus. Havia uma harmonia entre o homem e a terra, às outras criaturas, e entre ele e a mulher. Ambos se respeitam, o que Depois do pecado serão perdidas.

Em Gn 3 insurge a figura da serpente, um animal astuto, sobretudo porque sabe que quem ouviu a ordem divina de não comer do fruto do bem e do mal foi o homem e não a mulher. Assim, sorrateiramente ela incide sobre Eva. Além desse fato, vale ressaltar que tal serpente não convidou o homem e a mulher a comerem do fruto, ela simplesmente lançou uma semente de desconfiança no coração dos primeiros pais pais, dando a entender que Deus estaria escondendo aquilo que havia de melhor para eles, daí o "sereis como Deuses".

Em outras palavras, a serpente apresenta o Criador como aquele que não quer a felicidade do homem. Dessa forma, seduz a mulher pela desconfiança lançada. Um vez colocada esta semente no coração de Eva, esse astuto animal se afasta, porque não há mais nada o que fazer.

A partir daquele momento, era a hora da escolha deliberada do primeiro casal. Aqui o pecado é descrito de modo banal. Ou seja, romper com Deus é posto no mesmo plano de uma simples atitude de colher um fruto e comer. Assim, o pecado apresentando-se como algo comum, aponta diretamente para um ato de desconfiança de Deus e para um desejo imediato de autonomia.


O conhecimento que a serpente promete foi de fato instantâneo, contudo, não era aquilo que eles esperavam. Descobrindo como são limitados, frágeis, eles passaram a não se aceitar tais quais eram, daí o esconder-se por causa da nudez. É perceptível, a este respeito, a dinâmica do pecado que rebaixa o ser humano. Se antes Adão e Eva viviam em harmonia, e tinha contato com as fraquezas um do outro, após o pecado, o que passou a dominar foi a desconfiança, até mesmo do seu semelhante.


Sob esse viés, pode-se externar que a natureza do pecado original decorre dessa prova de fidelidade que não foi superada. O homem foi colocado como guardião do jardim com cláusulas a serem observadas, e a prova foi uma falha no que tange à confiança. Portanto, a índole deste pecado foi racional e espiritual. Há muitas opiniões que podem desvirtuar o sentido das coisas. Exemplo disso, é a redução do pecado à algo social ou psicológico. Contudo a dimensão do pecado é teológica, já que correu uma ruptura com Deus. Entretanto, é certo que pecado afetou inúmeras outras dimensões.


No versículo 8, vemos que a situação harmônica é completamente desfeita. Homem e mulher já se olham com desconfiança, a harmonia com Deus é destruída. Se antes havia uma relação de proximidade com o criador, após o pecado passou a existir medo. É possível identificar esse fato na própria atitude do casal de esconderem-se de Deus.


Essa degradação da ordem divina é explicita, sobretudo quando Adão acusa Eva diante de Deus como culpada pelo pecado. Tal acusação se estende também ao criador, quando ele externa que a culpada foi " a mulher que me destes". É evidente aqui ódio, falta de solidariedade gerada pelo pecado. Não existe união na realidade do pecado.

O que se pode concluir com tudo isso, é que ainda hoje o pecado e mal adentra a vida do homem a partir de uma desconfiança de Deus, sobretudo quando guarda em seu coração o pensamento de que por si só ele é capaz de salvar-se, que é capaz de ser feliz.

Podemos enxergar essa realidade justamente no fato de que quando cometemos algum pecado, temos a tendência de escondermo-nos de Deus, tal qual fizeram Adão e Eva. Entretanto, a bondade do Senhor e o seu amor por nós nunca nos abandonam, e isso é evidenciado numa pergunta que sempre ecoa no mais íntimo do nosso coração: “Onde estás?”, a mesma pergunta que Deus fez a Adão e Eva quando estavam escondidos por medo , mas que aponta para uma chamada de atenção, para um "veja aonde você foi parar" ou um "despertar a consciência" .

Por fim, é interessante constatar que esse desejo por autonomia e liberdade são marcas características dos homens de todos os tempos. Contudo, o homem só é autônomo verdadeiramente quando se reconhece dependente de Deus, tal qual um recém nascido nos braços de sua mãe, quando sabe que a felicidade está em possuir e gozar do Senhor. É desse modo que seremos verdadeiramente livres, já que não há libertação no mal, senão apenas decadência, vazio, e falta de sentido.



Francisco Évison Isaías Lopes


136 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

© Copyright 2020  |  In Veritatem  |  Todos os direitos reservados

Quem procura a verdade busca a Deus
Logo_InVeritatem-01.png
  • Facebook
  • YouTube