DA CARPINTARIA AO CALVÁRIO

Visto que o pecado mais comum da humanidade é o orgulho ou a exaltação do ego, era conveniente que, em expiação por esse orgulho, Cristo praticasse a obediência. Não era como quem é obediente por conta de uma recompensa ou para fortalecer o caráter futuro; ao contrário, sendo o Filho, já desfrutava da plenitude do amor do Pai. Foi dessa mesma plenitude que fluiu uma rendição infantil à vontade do Pai. Apresentou isso como causa da rendição à cruz. Mais ou menos uma hora antes de ingressar na agonia do Jardim das Oliveiras, diria:

"O mundo, porém, deve saber que eu amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou" (Jo 14, 31).

Os únicos atos registrados da infância de Cristo são os de obediência - obediência ao Pai Celestial e aos pais terrenos. O fundamento da obediência para o homem, ensinou, é a obediência a Deus. [...] Toda a vida de Cristo foi de submissão. Submeteu-Se ao batismo de João, embora não necessitasse; submeteu-Se ao imposto do templo, embora, como Filho do Pai, fosse isento; e pediu aos próprios seguidores que se submetessem a César. O Calvário projetou Sua sombra sobre Belém, de modo que agora obscureceu os anos de obediência em Nazaré. Ao sujeitar-se às criaturas, conquanto fosse Deus, preparou-se para a obediência final - obediência à humilhação na cruz.

Pelos 18 anos seguintes, depois da perda de três dias, Ele, que fez o universo, exerceu o papel de carpinteiro em um vilarejo, um operário de madeira.

Os pregos e as vigas transversais, tão familiares na oficina, tornaram-se, mais tarde, os instrumentos de sua tortura; e Ele mesmo seria pregado a um pedaço de madeira.

Poderíamos pensar por que essa longa preparação para um ministério tão breve de três anos. O motivo pode muito bem ser que ele esperava até que a natureza humana que assumira tivesse crescido em anos para atingir a perfeição plena, de modo que oferecesse o sacrifício perfeito ao Pai Celestial. O agricultor espera até que o trigo esteja maduro antes de ceifa-lo e submetê-lo ao moinho. Da mesma maneira, Jesus esperaria até que Sua natureza humana tivesse alcançado as mais perfeitas proporções e o auge da beleza antes de entregá-la ao martelo dos crucificadores e à foice daqueles que ceifaram o Pão vivo descido dos céus. Um cordeiro recém-nascido nunca foi dado em sacrifício, nem o primeiro rubor da rosa colhido para homenagear um amigo.

Cada coisa tem a sua hora de perfeição.

Já que Ele era o Cordeiro que podia estabelecer a hora do próprio sacrifício, já que era a rosa que podia escolher o momento do corte, esperou pacientemente, com humildade e obediência, enquanto crescia em anos, graça e sabedoria diante de Deus e dos homens. Então, diria: "Eis a tua hora". Deste modo, o melhor trigo e o vinho mais tinto se tornariam os elementos mais dignos do sacrifício.

(Fragmentos do livro: Vida de Cristo, Vol. I. de Fulton Sheen)

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