Cristo: novo Adão, nova Criação

Atualizado: 6 de Jun de 2020



Ao observarem-se os relatos do Antigo Testamento, sobretudo os do gênesis, é possível identificar que Deus, por meio de suas ações, manifesta o seu profundo amor e cuidado com aquilo que ele criou para si. É nesse sentido que toda a criação aponta para o seu Criador, como ser que não apenas cria, mas sustenta todas as coisas em seu ser.


Além disso, no que tange a história da salvação, vê-se que Adonai se revela como o Deus de um povo, que dá razões suficientes para crer em seus desígnios e promessas. Assim, nas suas ações, o Senhor de modo gradativo vai exprimindo seu direito exclusivo sobre o povo de Israel, bem como evidenciando a sua onipotência e majestade sobre os demais povos, garantindo-lhes que só Nele e por Ele é possível à salvação, sendo Este a origem e o fim pra o qual todas as coisas tendem.


Quando voltamos o nosso olhar para a dinâmica da eleição do Povo de Israel e o seu modo de colocar-se a caminho da grande Promessa, percebemos que existe um fio condutor mediante o qual Adonai vai construindo uma história de redenção junto com seus eleitos.


Nesse processo, de modo pedagógico o Senhor vai gradualmente dando-se a conhecer: de um Deus totalmente outro, distante, até um Deus inteiramente próximo, que se dobra de amor pelo seu povo.

No Antigo Testamento não se tem um termo técnico para se referir ao Fato da revelação. Contudo, é visível a existência de termos que denotam essa dimensão dialogal entre Deus e o homem, cujo poder “modifica o curso da história e dos indivíduos.” Aqui Deus vai se dando a conhecer aos poucos, ao longo do tempo, e se utiliza de uma gama de canais para comunicar a sua palavra, tendo por peculiaridade a Aliança. Exemplos disso são: o próprio chamado de Abraão, ao qual se apresenta como um puro falar divino, e ele vive essa experiência de ir ao encontro do desconhecido tendo apenas a promessa de seu Deus como garantia; Deus que conversava com Moisés como um amigo, embora não lhe mostrasse o rosto, e Deus que coloca na boca dos profetas a sua palavra.


Vale ressaltar que o momento vivido pelo povo de Israel no Êxodo consiste numa etapa decisiva da revelação, pelo fato de que o próprio Deus elege Moisés para liderar, libertar e guiar o seu povo no deserto, dando a conhecer o seu nome, revelando assim não só que existe, mas também que é o único Deus e o único salvador. Nesse sentido, tomando as palavras de Latourelle, “libertação, eleição, aliança, lei, formam um todo indivisível[1].” Aqui Deus elege o seu povo e com ele faz a sua aliança.


Em outras palavras, é na história que o povo de Israel fez a experiência da ação favorável de Deus. Assim, é possível externar que a história constitui–se em uma manifestação das sucessivas intervenções divinas, que se presentifica como sabedoria, enquanto palavra saída da boca do Altíssimo.

Posto isso, ao analisarmos a história desse povo escolhido, chegamos ao entendimento daquilo que muitos exegetas, como Zenger, concluíram, já que concordam que toda tragédia faz com que o povo reflita sobre a sua história, e usaram, para respaldar essa questão, alguns fatos como a queda da Samaria[2] frente ao domínio da Assíria de Sargão II em 722 a.C; a queda do Templo; o Exílio da Babilônia, dentre outros acontecimentos.


Com a queda da Samaria, o reino do Norte foi invadido pela Assíria e teve o seu território incorporado por eles. Algumas pessoas conseguiram migrar para o reino do Sul apesar do contraste, levando a sua cultura, os seus costumes. Em 586 o templo é destruído por Nabucodonosor e o povo é mandado para o Exílio. Com esse evento o povo de Israel parou para repensar a sua história

O exílio da Babilônia trouxe cicatrizes muito profundas para o povo. Para lá foram a elite política e religiosa, os quais, ao partirem, levaram consigo as suas Tradições. Nesse momento o povo acabou entrando em uma grande crise de fé e de identidade. Muitos chegaram a pensar, ao fazer essa reflexão sobre sua história, que todo mal que estava ocorrendo era decorrente de suas infidelidades e traições para com Deus.


Já não havia mais templo nem terra. Dessa forma, os judeus firmar-se-ão em outros elementos como modo de culto, e para estabelecer os limites entre o povo eleito e os pagãos, dentre elas estão: a Palavra de Deus guardada em seu coração e transmitida, a pureza alimentar e reafirmação da circuncisão. Tudo isso foi sendo acrescentado na tradição religiosa.


Um aspecto muito particular desse chamamento de Deus é justamente a sua via de confronto. Isto é, sempre coloca o homem diante de uma exigência de resposta. Se pela palavra Deus chama, convoca, elege, pela vida o indivíduo é impelido a responder ao Senhor com generosidade. Essa resposta se desdobra através da adoração, louvor e bendição a Deus Criador.

Ao observarmos todos esses fatos, podemos lançar luzes para aquilo que o mundo está vivendo hoje com o Covid-19. Diante dessa afirmação é possível, logo de início levantar o seguinte questionamento: o que a história do povo de Israel tem a ver com a nossa? A resposta é muito simples, do mesmo modo como esse povo parou para refletir sobre a sua história, mediante as grandes tragédias, sobretudo com a queda do Templo e com o Exílio da Babilônia, cada homem de hoje certamente, ao longo desse período de pandemia parou nem que seja em um breve espaço de tempo para refletir sobre a sua vida.


Já não podemos mais sair de casa, já não temos mais acesso aos nossos templos e a nossa vida como de costume. Será que Deus nos abandonou? Será que ele virou as costas para nós? Certamente não. Do mesmo modo como Deus permaneceu fiel a Israel, conduzindo-o a redescobrir uma via de culto mais interior, cuja dinâmica é a própria vida entregue e não mais a da imolação animal, Ele, de modo pedagógico nos está ensinando que o culto agradável a seus olhos é aquele que brota do coração, cujo centro está na entrega total e definitiva de seu Filho Jesus por nós.


Sob este prisma podemos compreender que mesmo passando hoje por essa grandiosa tribulação, o Senhor nos está dando uma grande oportunidade de sairmos da pandemia das nossas exterioridades e futilidades para passarmos para a pandemia do essencial, que é o seu amor. Deus nos chama hoje a fazer em nós um mergulho no nosso interior para trilhar um caminho de redescoberta não apenas de si, mas de Dele em si.

Sabemos quão doloroso tem sido todo esse processo de Pandemia, e a todo tempo somos bombardeados com notícias que revelam muitas perdas. Contudo, somos homem e mulheres que vivem sob a perspectiva da esperança, homens e mulheres que acreditam que o mal não tem a palavra final.


Deus tem nos permitido experimentar nesses dias de quarentena justamente uma grande saudade Dele, e essa saudade deve nos fazer olhar cada vez mais para aquilo que realmente é essencial, para aquilo que realmente importa que é justamente estar em íntima unidade com o Senhor de Nossa vida, o Deus de Nossa história. Essa intimidade verdadeira reflete diretamente no nosso lidar com o outro, com as suas misérias e limitações e enxergar que Deus também habita ali, mergulhando assim na dinâmica do seu amor que supera toda dor.


Viver a dinâmica do amor consiste justamente viver a dinâmica da cruz, como lugar onde Cristo nos prodigalizou a salvação. Em sua cruz o Senhor nos ama vindo ao encontro dos nossos sofrimentos. Ele permite que compartilhemos esse peso com Ele. “só quem suportou os maiores sofrimentos do mundo é capaz de compreender nosso sofrimento”.

Na Cruz de Cristo que é manifestação suprema de amor, nós podemos compreender que a dor do outro, as limitações do outro devem ser um lugar que nos gere, que gere em nós frutos de Ressurreição. Daí o próprio Evangelho a nos dizer: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Quanto a essa pandemia, a certeza que brota dos nossos corações é de que vai passar, como todas as coisas desse mundo. Só o nosso Deus permanece e deve tomar em nossos corações o lugar que lhe é de direito, o Centro, para que não acorramos novamente aos nossos vícios e mediocridades. Nós somos a raça escolhida, o povo santo de Deus. Acorramos a Ele.


Francisco Évison Isaías Lopes


[1] LATOURELLE, René. Revelação. In: LATOURELLE, René – FISICHELLA, Rino. Dicionário de Teologia Fundamental. Aparecida/ Petrópolis: Vozes/ Santuário, 1994, p. 818. [2] Naquela época o reino de Israel já havia sido dividido em reino do Norte, Israel, e reino do Sul, Judá. Samaria era a capital do reino do Norte. Por isso, a sua queda representava uma derrota total para Israel.

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