Corpus Christi: origem e teologia

Atualizado: 12 de Jun de 2020




Meus queridos irmãos, a Igreja como mãe e mestra que é, nos oferece hoje mais uma oportunidade de crescermos radicalmente no amor e na fé a Jesus presente no Santíssimo sacramento. A solenidade de Corpus Christi, ou do Santíssimo sacramento do Corpo e Sangue de Cristo que nós católicos celebramos todos os anos na primeira quinta-feira após a Oitava de Pentecostes, nem sempre existiu como festa no calendário litúrgico da Igreja. Podemos considerar que o ponto culminante de sua instituição foi a bula “Transiturus de hoc mundo”, do Papa Urbano IV, publicada no dia 11 de agosto de 1264. Contudo, quero fazer aqui algumas breves considerações a respeito dos antecedentes espirituais que levaram o papa a tomar tal atitude e com abrangência universal.


Dentre os antecedentes espirituais desta solenidade podemos destacar primeiramente uma visão que santa Juliana de Liège, religiosa agostiniana teve, esta que foi desde sua juventude marcada pelo zelo e pela devoção ao Santíssimo sacramento, chegando aceder cada vez mais aos mais altos níveis da contemplação, numa relação de amor e proximidade com o senhor. Santa Juliana, conforme descreve o Papa Bento XVI em catequese a seu respeito


Com a idade de 16 anos [n.d.t.: por volta de 1209, portanto, ela] teve uma primeira visão, que depois se repetiu várias vezes nas suas adorações eucarísticas. A visão apresentava a lua no seu mais completo esplendor, com uma faixa escura que a atravessava diametralmente. O Senhor levou-a a compreender o significado daquilo que lhe tinha aparecido. A lua simbolizava a vida da Igreja na terra, a linha opaca representava, ao contrário, a ausência de uma festa litúrgica, para cuja instituição se pedia a Juliana que trabalhasse de maneira eficaz: ou seja, uma festa em que os fiéis pudessem adorar a Eucaristia para aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento. […]

Juliana só partilhou esta visão com suas amigas depois de 20 anos, após guardar para si, rezar e refletir a este respeito. Foi precisamente D. Roberto de Thourotte, Bispo de Liège, que, após algumas ponderações, aceitou a proposta de Juliana e das suas companheiras, e instituiu pela primeira vez a solenidade do Corpus Christi na sua Diocese. Posteriormente outros bispos acabaram imitando esta prática e estabeleceram esta mesma festa em seus territórios de atuação pastoral.


Outro ponto que podemos destacar de grande importância para instituição desta solenidade foi um milagre eucarístico ocorrido em 1263 na cidade de Bolsena, na Itália, um ano antes da instituição do Corpus Christi, que ocorreu nas mão de um sacerdote alemão chamado Pedro de Praga que havia parado nesta cidade, no percurso de uma peregrinação, para celebrar a missa. Ele, que estava em crise de fé quanto a presença real de Cristo nas espécies do pão e do vinho, testemunhou durante a missa que do pão escorrera sangue de fato, o que lhe fez parar e levar para as autoridades eclesiásticas, de modo mais preciso ao Papa Urbano IV que mandou averiguarem, e, com isso confirmaram. Dessa forma, o papa realizou uma grande procissão solene com essas relíquias. Depois disso pediu a s. Tomás de Aquilo, que compusesse textos litúrgicos sobre corpus Christi, dos quais nasceram os mais belos hinos em devoção ao Santíssimo Sacramento.


É interessante destacarmos também que Tiago Pantaleão de Troyes, que era arquidiácono em Liège deixou-se conquistar e entusiasmar pela grandiosidade e profundidade desta festa que conheceu mediante Santa Juliana Foi exatamente ele que, ao tornar-se Papa em 1264, com o nome de Urbano IV, instituiu a solenidade do Corpus Christi como festa de preceito para a Igreja universal. Portanto, o mesmo papa que instituiu esta solenidade foi aquele que teve contato com esses dois eventos que destacamos anteriormente, isto é, o conhecimento de santa Juliana e de sua visão, bem como o fato do milagre eucarístico.


Meus irmãos, a Eucaristia é o maior de todos os sacramentos, é a fonte e a própria razão de ser da Igreja. Não é a toa que o Concílio Vaticano II aponta que a “eucaristia é o centro e o ápice da vida cristã”. A Igreja existe a partir e para a Eucaristia. Somos igreja, somos membros do corpo de cristo e a celebração deste sacramento nos enxerta cada vez mais em Cristo e a seu corpo. A festa de corpus Christi contempla um dos importantíssimos aspectos da Eucaristia. Todos nós sabemos que a Igreja celebra a instituição da Eucaristia na quinta feira Santa. Esta instituição está intimamente ligada ao sacrifício do calvário. É ela o sacramento perene da páscoa cristã. Contudo, além dessa realidade do sacrifício, há também a realidade da presença. Em outras palavras, de um lado tem-se a realidade da dinâmica e/ou ação eucarística e do outro a realidade da presença eucarística. Assim, era importante também que se fizesse uma festa litúrgica para celebrar a presença de Jesus na eucaristia, destacando-a, enfocando este tão precioso aspecto.


Como dissemos precedentemente, no primeiro milênio essa festa não existia. Isto supostamente se deve ao fato de que neste período não havia heresias eucarísticas, pois ninguém ousava sequer duvidar da presença de Jesus. Tal presença era tida como uma unanimidade da fé. Entretanto, já no final da Idade média, começaram a surgir heresias mediante a explicação errônea acerca da presença de Jesus na eucaristia, como por exemplo, o conceito de empanação, cujo principal expoente é Berengário de Tours. Tal pensamento abordava que a matéria do pão ainda estaria presente no momento da consagração. Jesus estaria no pão, como numa espécie de concomitância de substâncias, não ocorrendo assim o que chamamos de transubstanciação. Depois houve a negação da presença de Jesus pela “revolta” protestante.


Portanto, essa festa advém num contexto de grandes embates e negação da presença real do senhor na Eucaristia. Tal solenidade manifesta e/ou exibe para o mundo a nossa fé. Podemos perceber claramente aqui a responsabilidade que temos em, de fato, levemos Jesus para abençoar as ruas de nossa cidade. Essa presença na eucaristia é duradoura e não há sombra de dúvida sobre isto. Cristo está e permanece presente no Santíssimo sacramento. Por isso que guardamos a eucaristia no sacrário para levarmos aos doentes.

A presença de Cristo não é estática, Cristo vem até nós, ele nos atrai, e, nós o comungamos. Após comungarmos e participarmos da missa de modo digno, fazemos a procissão de corpus Christi onde passamos a ser esses ostensórios vivos que levam Jesus para as ruas. Ao comungarmos, cristo está em nós, ele nos santifica.

Levamos a presença de Cristo pelas ruas da cidade em oração. Jesus comunica a nós a santidade. Ao comungarmos nos tornamos participantes de sua natureza, estamos realizando o ato mais santificador que podemos fazer em nossa vida espiritual. Assim, quando recebemos a comunhão precisamos tomar consciência de que esta presença deve ser eficaz, não apenas válida. Esse efeito é a santificação. Jesus, fonte da santidade nos santifica. O amor é esta disposição e/ou abertura básica para nos aproximarmos da de Jesus eucarístico.

Os grandes santos tinham uma santa e avassaladora vontade de participar da eucaristia, uma fome e sede sem precedentes. Eles viam na impossibilidade de receber tão precioso dom um grande sofrimento. Esta é uma característica de quem está em um processo de crescimento espiritual. Seguindo este exemplo, devemos nos preparar bem para comungar, e essa preparação pode ser feita em momentos de visita ao Santíssimo, visitas estas que vão além das dimensões de lugar.


A prática da comunhão espiritual é muito importante para nós. O concílio de Trento nos recorda que existem três maneiras diferentes de comungarmos: somente no sacramento, somente espiritualmente, e comungar de ambas as formas. A primeira é a comunhão dos pecadores que simplesmente recebem o corpo de Cristo, mas não há comunhão de fato. A comunhão somente espiritual, isto é, aquela em que podemos, simplesmente porque não temos a possibilidade de receber o Senhor, desejá-lo e imaginar que estamos recebendo, e, com isso estaremos em comunhão efetiva e, vamos, por conseguinte, dispondo a nossa alma para receber o sacramento. A terceira forma é aquela segundo a qual as pessoas em estado de graça recebem o sacramento e os seus frutos. Quando Deus se derrama em nós, isso ocorre em proporção da abertura do nosso coração.


Irmãos, possamos nós, a cada dia mais crescermos em amor ao Senhor, de modo que somente o amor de Deus seja o nosso verdadeiro reflexo para todas as pessoas. Quem ama a Deus nele se transforma, a ele se configura. Lembremos, quando amamos algo, nos transformamos naquilo que amamos, o objeto amado revela quem somos.




Francisco Évison Isaías Lopes

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