Cooperatores veritatis #6

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


O significado do Reino de Deus para Joseph Ratzinger-Bento XVI: terceira parte


A pregação de Jesus é mensagem do seu próprio mistério, a cristologia.


Após verificarmos que, para Joseph Ratzinger, o tema do Reino de Deus é central na pregação de Jesus, já podemos, então, diretamente perguntar qual é o significado dessa categoria: afinal, como o nosso autor interpreta o Reino de Deus na proclamação de Jesus? De modo muito direto, aliás, encontramos o seguinte no primeiro volume de seu Jesus de Nazaré: “o discurso sobre Deus é sempre central, mas precisamente porque Jesus mesmo – o Filho – é Deus, então toda a sua pregação é mensagem do seu próprio mistério, a cristologia, isto é, discurso acerca da presença de Deus na sua própria ação e no seu próprio ser”.


Fundamentalmente, conforme o pensamento de Joseph Ratzinger, o Reino de Deus deve ser considerado, no contexto da proclamação de Jesus, como princípio e fundamento da cristologia, cuja noção, aprofundada no querigma apostólico e desenvolvida nos primeiros séculos da teologia cristã, viria a desembocar na posterior formulação do dogma ontológico-cristológico. Para muito além de uma mera interpretação secularista, o Reino de Deus na proclamação de Jesus deve ser compreendido, não como simplesmente um mundo no qual dominam a paz, a justiça e o respeito pela criação. Um reducionismo de tal porte, exclui a presença de Deus e do que se trata é apenas do homem. Todavia, conforme a opinião do nosso autor, “Jesus só existe como o Cristo e o Cristo só existe em Jesus” (RATZINGER, J., Introdução ao Cristianismo) e o seu anúncio do Reino de Deus é “discurso acerca da presença de Deus na sua própria ação e no seu próprio ser” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


Na sua proclamação, na atividade que realiza, nos gestos acenados, no silêncio da oração e no vigor de suas palavras, na história e na vida inteiras de Jesus, não se poderiam identificar apenas um programa pessoal, dentre tantos, nem mesmo um germe de revolução política ou moral que sejam. Assim, ao falar do Reino de Deus, Jesus não pretenderia estabelecer, meramente, um discurso informativo quanto a uma nova ordem de relações, por exemplo. O seu discurso e a sua proclamação sobre o Reino de Deus, na verdade, são reveladores da inaudita entrada em ação do verdadeiro Senhor do mundo, o Deus vivo.

Em seu artigo sobre o Cristocentrismo na pregação, que podemos encontrar no livro Dogma e Anúncio, o nosso autor indica de onde lhe veio a inspiração dessa sua assertiva. Na ocasião, ao procurar oferecer resposta a quem afirmava que a pregação de Jesus não seria cristocêntrica, mas, antes, que nela o foco se concentraria apenas na proclamação da proximidade Reino de Deus, é de se notar o que ele propõe: “como acabamos de dizer, o problema difícil que surge com isso precede a problemática do querigma, não podendo nesse caso ser tratado mais de perto no contexto presente. Deve bastar expor aqui a solução cuja expressão clássica vem de Orígenes, quando chama a Cristo de a autobasiléia: o Senhor mesmo é a vinda iniciada do reino de Deus. Isso, porém, é de significação decisiva tanto para a compreensão do “reino” como para a apreensão da mensagem bíblica sobre Cristo. De fato, se é assim, de um lado vale que o reino de Deus, na mensagem de Jesus, não é um conceito universal indeterminado. Tem nele mesmo seu início concreto, orientado para ele como seu começo próprio; mas também vale que Cristo, para a primeira pregação apostólica, é central só porque e no sentido de que significa a entrada do reino de Deus neste mundo. Em outras palavras, Cristo está no centro da pregação apostólica pela razão de que é a presença da ação divina sobre os homens”.





Essa mesma forma de pensar segue presente em sua reflexão. Anos depois, no primeiro volume de Jesus de Nazaré, ele segue recorrendo a Orígenes para explicitar sua hermenêutica sobre o Reino de Deus: “a partir da leitura das suas palavras, Orígenes caracterizou Jesus como a autobasileia, isto é, como o Reino de Deus em pessoa. Jesus mesmo é o “Reino”; o Reino não é uma coisa, não é um espaço de domínio como um reino do mundo. É pessoa: o Reino é Ele. A expressão “Reino de Deus” seria ela mesma uma cristologia oculta: no prodígio que é Deus mesmo estar n’Ele presente entre os homens, que Ele é a presença de Deus, conduz os homens para Ele através do modo como Ele fala do “Reino de Deus” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I). De fato, para ele Cristo fala de si mesmo e de seu próprio mistério ao fazer a proclamação do Reino de Deus.


Mais uma vez, torna-se oportuna a menção de seu texto sobre o Cristocentrismo na pregação: “o que faz com que Cristo seja importante, é Deus, é sua filiação divina. Se nele Deus realmente se tornou homem, então Ele permanece decisivo para todos os tempos. Assim e somente assim, Ele é insubstituível. E, nesse caso, será importante a sua humanidade, porque este seu ser homem mostra quem é Deus; esse homem é então um caminho. Cristo, o Filho de Deus, faz do homem Jesus, algo precioso e único. Esquecer esse aspecto divino, não significa descobrir o homem Jesus, mas apagá-lo, substituindo-o pelos próprios ideais (...). Mas se este ser divino aconteceu, se Deus realmente se tornou homem, então esta é uma irrupção cujo drama não pode ser superado por nada. Só então, o mundo e Deus não ficarão eternamente lado a lado, só então é que Deus agiu. O ser-Deus de Jesus é a ação de Deus, o ato que constitui o fundamento da “atualidade” da pregação. Contanto que seja baseado neste ato, ele retém um interesse objetivo. Se ele o abandona, torna-se insignificante, mesmo quando for subjetivamente interessante.


Não é demais mencionar, aliás, que ele não está sozinho nessa maneira de pensar. Essa mesma perspectiva, por exemplo, é citada por Filippo Santoro, no editorial da edição de setembro-dezembro da Revista Communio, no ano de 2007: “Jesus anunciou que o reino já estava presente e o papa João Paulo II, claramente, afirma, na encíclica Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990): “Em Cristo há identidade entre mensagem e mensageiro, entre o dizer, o fazer e o ser” (§ 13). E depois acrescenta: “O reino de Deus não é um conceito, uma doutrina, um programa sujeito a livre elaboração, mas é acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível”.

Além da mera especulação teológica, ele também lança mão de textos bíblicos e intertestamentários que ajudam no embasamento da sua interpretação da proclamação de Jesus sobre o Reino de Deus. Nesse sentido, segundo Joseph Ratzinger, a palavra hebraica malkut, os salmos de entronização, a figura do Filho do Homem no livro de Daniel, o culto do Templo de Jerusalém e na liturgia sinagogal, o ensinamento rabínico, os escritos de Qumran e a oração diária do Shemá Israel, proporcionam ao judeu piedoso a possibilidade de conectar-se à categoria do Reino de Deus, bem como à atuação desta sua soberania no mundo.

No seu entendimento, essa era, no judaísmo da época de Jesus, uma presença constante. Mais do que isso, aliás, ele explica que o anúncio da soberania de Deus, como toda a mensagem de Jesus, radicada no Antigo Testamento, que Ele, no seu movimento progressivo desde os inícios em Abraão até a sua hora, lê como um todo, o qual – precisamente se se capta a totalidade deste movimento – conduz diretamente a Jesus. Para Joseph Ratzinger, nesse sentido, “a mensagem de Jesus é muito simples, sempre mais teocêntrica” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


Nessa mesma perspectiva, ele, ainda acrescenta que “o que é novo e totalmente específico na sua mensagem é dizer: Deus está em ação agora, esta é a hora em que Deus se mostra na história, de um modo que supera tudo o que aconteceu até agora, como seu Senhor, como o Deus vivo” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I). Assim, se por um lado, a identidade divina de Jesus está radicada no seu anúncio do Reino de Deus, ao mesmo tempo, por outro lado, porque proclama o seu próprio mistério, na sua mensagem ele revela sua condição exclusiva de Filho de Deus.


E é aqui que se afigura o “ponto de partida de toda cristologia: na identidade de obra e ser, de ato e pessoa, na identificação total da pessoa com sua obra e na coincidência total do agir com a própria pessoa, que não reserve nada para si, entregando-se por completo à sua obra”. Na fenomenalidade da sua proclamação, elucida-se sua ontologia; na doutrina que ele ensina, no fundo, é revelado o seu próprio ser; no anúncio do Reino de Deus, é encontrado o mistério último de sua própria pessoa. Dito de outra forma e com os termos de Joseph Ratzinger: “Ele é em sua totalidade Filho, Palavra, Missão; a sua ação está enraizada no fundo de seu ser e se identifica com ele” (RATZINGER, J., Introdução ao Cristianismo). Ele próprio é, finalmente, o Reino de Deus de que fala e dá testemunho.

Finalmente, um outro aspecto que se deve considerar a respeito da relação de identidade entre o Reino de Deus e a pessoa do Filho de Deus encarnado, e que se se reveste de importância fundamental para Joseph Ratzinger, é a questão da oração de Jesus. Na sua opinião, é desse contexto que emerge o termo Abbá com que Jesus se dirige a Deus, que revela o cerne de sua relação com Deus, que corresponde perfeitamente ao fato de Jesus mesmo se chamar de filho, que expõe a olhos nus o significado profundo de sua mensagem sobre o Reino de Deus e que, consequentemente, se manteve no anúncio cristão sedimentado nos textos do Novo Testamento .


Reconhecer essa condição é, para ele, a única e real possibilidade de se viabilizar um mundo novo e um ser humano melhor. De novo: o Reino de Deus constitui-se, não através de uma construção política realizável pelo homem. Antes, faz-se por um dom de Deus que não se pode forçar, mas que, pelo serviço e o discipulado cristão, se pode tornar atual como o fez, qual germe e início, na sua proclamação, o próprio Filho de Deus. E isso significa para Joseph Ratzinger que “é aceito o critério da sua vontade. Essa vontade cria justiça, com a qual damos a Deus o direito e assim a medida para encontrar o direito entre os homens” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).





No intuito melhor classificar o que aqui importa, com as reflexões que faz Joseph Ratzinger sobre as relações entre a oração de Jesus e a sua proclamação sobre o Reino de Deus, torna-se oportuna a citação de mais uma passagem do primeiro volume de Jesus de Nazaré: “vimos que Jesus é o Reino de Deus em pessoa; onde Ele está, aí está o “Reino de Deus”. Assim, o pedido de um coração que escuta tornou-se o pedido de uma comunhão com Jesus Cristo, o pedido para que sejamos sempre mais “um só” com Ele (Gl 3,28). É o pedido pelo verdadeiro seguimento, que se torna comunhão e que nos torna um corpo com Ele” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


E prossegue: “Reinhold Schneider expressou isto de um modo penetrante: “A vida deste reino é Cristo, que continua a viver nos seus; no coração que já não for alimentado pela força da vida de Cristo termina o reino; no coração que for por ela tocado e transformado, ele começa...as raízes da árvore que não pode ser destruída procuram penetrar em semelhante coração. O reino é um só; ele mantém-se apenas pelo Senhor, que é a sua vida, a sua força e o seu centro...” (p. 31s). Pedir pela vinda do reino significa dizer a Jesus: deixa-nos ser teus, Senhor! Penetra-nos, vive em nós; reúne a humanidade dispersa no teu corpo, para que em Ti tudo esteja submetido a Deus e Tu então possas entregar tudo ao Pai, para que “Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,26-28)” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


Conforme indicado, nosso propósito até a presente edição pode ser resumido em dois objetivos: o primeiro, era o de procurar demonstrar como a compreensão sobre a realidade do Reino de Deus aparece elaborada nas reflexões teológicas produzidas por Joseph Ratzinger em sua carreira de teólogo, e o segundo, era o atestar que, ao longo de sua pesquisa, o tema sempre aparece interpretado na sua relação com a cristologia. E esperamos, pelo menos, que tenhamos conseguido minimamente nos aproximar aproximado de tais conclusões. A partir de agora, nossa intenção é tentar indicar a maneira como o resultado das suas pesquisas teológicas sobre o tema aparece aplicado nos pronunciamentos ao longo de seu Magistério Pontifício como Bento XVI., entre 9 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, seja pela referência às suas Cartas Encíclicas e Exortações Apostólicas pós-sinodais, seja nas manifestações em seu Magistério homilético e catequético.