Cooperatores veritatis #5

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


O significado do Reino de Deus para Joseph Ratzinger-Bento XVI: segunda parte


O Jesus Evangelhos – uma figura racional e manifestamente histórica.


Uma de primeiras manifestações do autor, a respeito do tema da proclamação de Jesus do Reino de Deus, com que me deparei, foi o famoso discurso de Bento XVI para a apresentação dos votos natalinos aos Membros da Cúria Romana, em 22 de dezembro de 2006. Em um pequeno trecho ele apresenta em brevíssima síntese o núcleo de seu pensamento sobre o tema:


“Na palavra Reino de Deus, a palavra ‘Deus’ é o genitivo subjetivo. Isto significa: Deus não é um acréscimo ao ‘Reino’ que talvez se poderia também ignorar. Deus é o sujeito. Reino de Deus significa dizer na realidade: Deus reina. Ele mesmo está presente e é determinante para os homens no mundo. Ele é o sujeito, e onde falta este sujeito nada permanece da mensagem de Jesus”.

E prossegue:


“Por isso Jesus diz-nos: O Reino de Deus não vem de modo que se possa, por assim dizer, pôr-se na beira da estrada a observar a sua chegada. ‘Está no meio de vós!’ (cf. Lc 17,20s.). Ele desenvolve-se onde é realizada a vontade de Deus. Está presente onde há pessoas que se abrem à sua chegada e assim deixam que Deus entre no mundo. Por isso é o Reino de Deus em pessoa: o homem no qual Deus está no meio de nós e através do qual nós podemos tocar Deus, aproximar-nos de Deus. Onde isto acontece, o mundo salva-se” (BENTO XVI, PP., Discurso Natalicia omina Curiae Romanae significantur).

Como podemos perceber, na pergunta sobre o que pretendia Jesus com a sua proclamação do Reino de Deus, na opinião do Papa Bento XVI, está implicada a questão sobre a sua identidade. Aliás, no amplo contexto da obra de Joseph Ratzinger-Bento XVI, não é possível compreender de modo autêntico o significado da proclamação de Jesus sobre o Reino de Deus fora da comunhão com a profissão de fé da Igreja na sua identidade de Filho de Deus. O contrário disso, ou seja, quando se opta por dissociar a mensagem de Jesus de sua pessoa, torna sua proclamação compatível com qualquer proposta, programa ou projeto em que se vislumbrem os valores humanos fundamentais da justiça, da fraternidade e da solidariedade, como vimos muitos autores fazerem.


Isso não é de todo mal, é verdade. No entanto, torna a abordagem da questão muito superficial, uma vez que faz com que procure a figura de Jesus, sem que este seja visto como o Cristo. E aqui, sim, nasce uma catástrofe, como já afirmava Joseph Ratzinger em sua Introdução ao Cristianismo: “de homem que é Deus, Cristo é transformado em um ser que teve uma experiência especial de Deus. Ele passa a ser um iluminado que não se distingue fundamentalmente de outros iluminados (...). Ao retirar a figura de Jesus dessa dimensão que sempre causou escândalo, separando-a de Deus, ela se torna contraditória. O que resta são apenas fragmentos que nos deixam desnorteados ou que se transformam em pretextos de autoconfirmação”.


Essa é uma sua convicção que se mantém robusta, aliás, ao longo de toda a sua obra. É de se notar, por exemplo, que no prefácio escrito para o primeiro volume de Jesus de Nazaré, ele deixa entrever aquilo que considera absolutamente irrenunciável na procura pelo lastro histórico da identidade de Jesus: “A pessoa de Jesus permanece obscura, irreal e inexplicável sem este fundamento em Deus. Este é também o ponto em torno do qual este meu livro é construído: ele vê Jesus a partir de sua comunhão com o Pai, a qual é o centro autêntico da sua personalidade, sem a qual nada se pode compreender e a partir da qual Ele se torna presente para nós hoje”.




Noutra passagem do mesmo texto, nosso autor afirma que é o Jesus dos Evangelhos o Jesus real, o Jesus histórico no sentido autêntico: “Estou convencido, e espero que também o leitor possa ver que esta figura é mais lógica e historicamente considerada mais compreensível do que as reconstruções com as quais fomos confrontados nas últimas décadas. Penso que precisamente este Jesus – o dos Evangelhos – é uma figura racional e manifestamente histórica”.


Tentar produzir, pois, qualquer opinião referente à figura de Jesus, prescindindo da fé da Igreja, como esta ficou sedimentada no NT e se desenvolveu nos dogmas cristológicos antigos, até a afirmação de sua consubstancialidade com o Pai e condição de verdadeiro homem e verdadeiro Deus (Mc 15,39), que se deu a conhecer de um modo sempre mais inequívoco, constitui, para Joseph Ratzinger, um grave atentado contra a condição de Filho de Deus que irrompeu no passado na pessoa de Jesus e permanece presente na história humana, por meio de sua Igreja.


O lugar da categoria do Reino de Deus na proclamação de Jesus.


Um outro aspecto é fundamental, antes de seguir os passos no caminho do que pensa Joseph Ratzinger sobre o Reino de Deus. Trata-se da questão sobre o lugar que a categoria do Reino de Deus ocupa na proclamação de Jesus. A este respeito, ele indica informações estatísticas quanto à presença do termo no Novo Testamento, em pelo menos três de seus escritos: no livro Escatologia: morte e vida eterna (1977), no livro Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão (1990) e, ainda, no primeiro volume de Jesus de Nazaré (2007).


Na obra Escatologia, encontramos o seguinte: “A expressão “reino de Deus” (ou “reino dos céus”) se nos mostra como a autêntica palavra-chave da pregação de Jesus segundo o Novo Testamento. É muito expressiva a estatística: no Novo Testamento o termo é empregado num total de 122 vezes; destas, 99 vezes pertencem aos três sinóticos, os quais em 90 ocasiões o colocam na boca de Jesus. Se vê bem claro que o termo teve uma importância fundamental na tradição referente a Jesus, porém perdeu terreno rapidamente na pregação pós-pascal. Tanto pelo número como pelo conteúdo se pode perceber que passou para segundo plano. Pode-se dizer que, enquanto a pregação de Jesus girou ao redor da ideia do reino de Deus, a pregação apostólica pós-pascal se centre na cristologia” (In JROC. v. X, p.28: tradução nossa).


Embora, as palavras que se seguem já pertençam aos desdobramentos que faz em sua reflexão sobre o lugar do Reino de Deus na pregação de Jesus, ao continuar a exposição dessa temática, ainda, na mesma obra, ele indica o seguinte: “O que ao leitor de hoje pode parecer necessariamente uma alteração fundamental não o constituía na fé e na vida de então. Na verdade, a cristologia foi a continuação natural do tema do “reino de Deus”, e isso indica algo sobre o conteúdo primitivo dessa palavra e sobre a tensão espiritual que se ocultava nela. E isso nos ajuda a descobrir alguma coisa da relação com o tempo e com a realidade que se encontra na forma da expressão ser utilizada”.





Anos depois, agora ao tratar da questão do testemunho do Novo Testamento sobre a origem e a natureza da Igreja, numa conferência sua durante o Curso dos Bispos, oferecido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, e que pode ser encontrada logo no primeiro capítulo do livro Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão, é possível identificar o mesmo registro feito pelo, então, cardeal Joseph Ratzinger: “Admitamos que a mensagem de Jesus não anunciava imediatamente o advento da Igreja, mas do Reino de Deus (ou do “Reino dos Céus”). Isto se comprova estatisticamente no fato de que, das 122 passagens do Novo Testamento que falam do Reino de Deus, 99 pertencem aos evangelhos sinóticos, e destas últimas 90 são diretamente palavras de Jesus. Assim se pode compreender a frase de Loisy que se tornou popular: “Jesus anunciava o Reino e o que veio foi a Igreja”. Entretanto, uma leitura desses textos sob o ponto de vista histórico nos mostra que esta contraposição entre Reino e Igreja não corresponde à realidade, pois, segundo a concepção judaica, a atividade de reunir e purificar os homens para o Reino faz parte do Reino de Deus”.


A mesma percepção é por ele incluída também no terceiro capítulo do primeiro volume de Jesus de Nazaré, onde a informação consta formulada da seguinte maneira:


“O conteúdo central do Evangelho diz: o Reino de Deus está próximo. É colocada uma marca no tempo, algo de novo acontece. E é exigida uma resposta do homem a esta oferta: conversão e fé. Esse anúncio forma realmente o centro da palavra e do ministério de Jesus. Uma indicação estatística pode sublinhar isto: a expressão “Reino de Deus” ocorre no conjunto do Novo Testamento 122 vezes; destas, encontra-se 99 vezes nos três evangelhos sinóticos; destas, de novo, 90 pertencem às palavras de Jesus. No Evangelho de S. João e nos restantes escritos do Novo Testamento, a expressão representa um papel muito limitado. Pode-se dizer: enquanto o eixo da pregação pré-pascal de Jesus é a mensagem do Reino de Deus, a cristologia constitui o centro da pregação apostólica”.

O que se pode concluir destas suas afirmações é que, também no pensamento teológico de Joseph Ratzinger, o tema do Reino de Deus é considerado central no contexto da atividade pública de Jesus, em sua pregação e ministério. Aliás, o nosso autor também atesta que “o tema do ‘Reino de Deus’ penetra toda a pregação de Jesus”. Na realidade, para Joseph Ratzinger, “a partir da totalidade de sua pregação”, o tema do Reino de Deus, na proclamação de Jesus, não constitui outra coisa senão o princípio e o fundamento mesmos da cristologia. Segundo este seu entendimento, desse anúncio se pode ver emergirem pelo menos duas conclusões fundamentais: a primeira, que evidencia “que Jesus fala sempre como o Filho” e, a outra, “que a relação entre o Pai e o Filho está sempre presente como pano de fundo de sua mensagem” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).