Cooperatores veritatis #4

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


O significado do Reino de Deus para Joseph Ratzinger-Bento XVI: primeira parte


Introdução


Seguindo com a série “Cooperatores veritatis”, na qual estamos publicando alguns textos em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI, a partir da presente edição do Testemunho de Fé, apresentaremos algumas reflexões sobre o tema da proclamação de Jesus sobre o Reino de Deus. Nossa intenção primeira é procurar demonstrar, mesmo que brevemente, como a compreensão sobre a realidade do Reino de Deus aparece elaborada nas reflexões teológicas produzidas por Joseph Ratzinger sempre interpretado na sua relação com a cristologia.





Nessa perspectiva, é fundamental a referência a textos seus como a Introdução ao Cristianismo, escrito em 1968, que já completou mais de 50 anos de publicação, e o primeiro volume de Jesus de Nazaré, obra significativamente recente, cuja publicação, embora não seja um ato de seu Magistério, remonta ao período de seu pontificado, nos anos de 2006 e 2007.


Também possuem grande relevância para nós algumas reflexões suas presentes na obra Escatologia: morte e vida eterna (que recolhe reflexões do período de docência em Ratsbona e que foi publicado originalmente em 1977), assim como, outras que aparecem no livro Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão (que contém uma série de conferências já do início da década de 1990), além de outros textos seus presentes em seu Dogma e Anúncio, de 1973, na sua A eclesiologia do Vaticano II, e nos livros O caminho Pascal (que reúne algumas meditações quaresmais proferidas para a Cúria Romana durante o pontificado de São João Paulo II) e Um canto novo para o Senhor (publicado originalmente em alemão, em 1995), entre outros textos seus.


Mas, também está entre os nossos objetivos demonstrar a maneira como o resultado das suas pesquisas teológicas aparece aplicado nos pronunciamentos magisteriais em seu pontificado como Bento XVI (entre 9 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013). Desse modo, na exposição do significado do Reino de Deus no seu Magistério Pontifício, vamos procurar considerar as Cartas Encíclicas eExortações Apostólicas pós-sinodais do período de seu pontificado, bem como as manifestações referentes ao tema em seu Magistério homilético e catequético.


De modo a produzir um contraponto da abordagem apresentado por nosso autor, inicialmente, vamos procurar oferecer uma contextualização da problemática sobre o Reino de Deus, no itinerário pesquisa moderna sobre Jesus. Para tanto, vamos utilizar algum material elaborado por autores que abordam essa temática. Esse elemento, de caráter introdutório, é extremamente importante, pois serve para dar uma exata noção da peculiaridade do significado que o Reino de Deus possui no pensamento de Joseph Ratzinger-Bento XVI.


O Reino de Deus na pesquisa moderna sobre Jesus


Jesus de Nazaré exerce extraordinário fascínio sobre a consciência cultural do Ocidente. Definitivamente, sua figura, sua história e sua mensagem jamais ficaram restritas apenas à esfera da religiosidade. Ainda que de modo complexo e fragmentado, sempre grandes foram o esforço empreendido e as energias empregadas para que ele se tornasse universalmente conhecido e múltiplas são as referências à história de sua atuação e à influência da interpretação de sua mensagem sobre os modelos de organização do mundo e nos mais diferentes segmentos sociais.

Naquilo que constitui seu elemento essencial, a fé cristã sempre se ocupou da figura de Jesus de Nazaré. Isto é evidente. Entretanto, apenas mais tardiamente, quando se iniciou um significativo movimento de produção e publicação de diversas reconstruções sobre ele, a pesquisa do Jesus histórico se moveu para o eixo central da teologia.


Os estágios mais embrionários da pesquisa moderna sobre a figura histórica de Jesus, que podem ser rastreados com a superação dos umbrais da Idade Média e o surgimento dos movimentos humanistas na Europa, por volta do final do século XVI, testemunham a emergência de narrativas sobre a figura e a mensagem de Jesus que se dissociavam daquelas contidas na confissão de fé católica, até então hegemônica. Essa nova perspectiva possibilitou que viessem à tona muitas imagens sobre Jesus, sua figura e mensagem.


Parte significativa dessas opiniões origina-se da emergência de duas grandes convicções tipicamente modernas. A primeira delas refere-se a uma percepção, cada vez mais frequente, sobre a continuidade entre Jesus e o judaísmo de seu tempo, que, como se tem ultimamente insistido, nasceu com a “descoberta” da judaicidade de Jesus. A segunda, que aparece no lastro da anterior, diz respeito à cisão operada, na pesquisa cristológica, entre a história e o dogma sobre Jesus, que foi estabelecendo um afastamento cada vez mais profundo entre o Jesus histórico e o Cristo da fé.


A imagem sobre Jesus que dominou a teologia, desde o século XVIII, até as primeiras décadas do século XIX foi, sobretudo, a de um exemplo inspirador para os ideais liberais daquela época, “que se harmonizava com uma religiosidade muito pessoal, fruto de longa tradição, que remonta a Lutero” (ZUURMOND, R., Procurais o Jesus histórico?). Nesse primeiro momento, tem-se em elevada conta os aspectos moral e sapiencial em detrimento do elemento escatológico, com o Reino de Deus sendo interpretado como uma realidade meramente interior. Joseph Ratzinger, por exemplo, afirma que em Adolf von Harnack, “a mensagem de Jesus era estritamente individualista (...) e estritamente moral” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


Num momento posterior, com Johannes Weiss e, na sequência, com Albert Schweitzer o Reino de Deus passará a ser considerado inteiramente futuro, não estabelecido por Jesus e sem qualquer relação com expectativas políticas (SCHWEITZER, A., A busca do Jesus histórico). Também desse período, encontramos em Alfred Loisy aquela célebre a frase, que bem traduz a mentalidade de sua época, a ele atribuída, de que Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja.


Na sequência das pesquisas, Rudolf Bultmann passa afirmar que Jesus deve ser compreendido “apenas como um mestre judeu”, inserido no contexto das esperanças de seu povo, como apenas um profeta escatológico e que a mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus surge somente como um apelo à atitude da existência de uma permanente disponibilidade diante de Deus, sem a necessidade de uma profissão de fé (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).


É aos pobres – “os difamados, os amme ha-'eres, os sem instrução, os ignorantes, aos quais, segundo as convicções do tempo, estava fechado o acesso à salvação por causa de sua ignorância religiosa e do seu comportamento moral” – que Jesus dirige sua mensagem, afirma Joachim Jeremias, para quem “a basileia pertence só aos pobres” (JEREMIAS, J., Teologia do Novo Testamento).


No panorama da Teologia da Libertação, se assumiu a compreensão de que os pobres ocupam lugar preferencial no Reino de Deus. Com Jon Sobrino e Leonardo Boff podem ser encontradas as primeiras tentativas do desenvolvimento de uma cristologia e uma penetração peculiar no quadro teórico da Teologia da Libertação, fato que interfere na interpretação sobre o Reino de Deus.


Segundo o pensamento de Jon Sobrino, a existência histórica de Jesus se desenvolveu pelo serviço do Reino de Deus, através de uma autêntica radicalização dos pressupostos que moviam a esperança de Israel e na linha dos grandes profetas do Antigo Testamento. Para ele, Jesus surge como mediador do Reino de Deus, um Reino marcado pela exigência de justiça e libertação.


Para Leonardo Boff, o Reino de Deus, muito além do mero sentido religioso, constitui um projeto de humanização do mundo, que passa pela experiência e a libertação da vida humana em todas as suas dimensões. Segundo a sua opinião “Jesus inicialmente não pregou nem a si mesmo nem a Igreja, mas o Reino de Deus. Reino de Deus é a realização da utopia fundamental do coração humano de total transfiguração deste mundo, livre de tudo o que o aliena, como sejam a dor, o pecado a divisão e a morte”, é também “a libertação do legalismo, das convenções sem fundamento, do autoritarismo e das forças e potentados que subjugam o homem (BOFF, L., Jesus Cristo libertador).


Jurgen Moltmann procurou desenvolver, em ligação com E. Bloch, uma teologia da esperança, que pretendia compreender a fé como envolvimento ativo na formação do futuro. Jesus é descrito como “o profeta messiânico dos pobres” e seu anúncio do Reino de Deus “a irrupção do futuro na palavra que promete e liberta” através do agir de Jesus. Segundo esse autor, “o evangelho do Reino de Deus é o evangelho da libertação do povo: quem anuncia o futuro de Deus, esse traz a liberdade ao povo” (MOLTMANN, J., O caminho de Jesus Cristo).


José Antônio Pagola assevera que Jesus não ensina uma doutrina religiosa e não expõe novas normas e leis morais. Para ele, o Reino de Deus manifesta-se como “uma esperança que Jesus encontrou no coração de seu povo e que ele soube recriar a partir de sua própria experiência de Deus”: não se trata de “algo privado e espiritual que acontece no íntimo de uma pessoa”; também “não é uma intervenção terrível e espetacular, mas uma força libertadora, humilde, mas eficaz, que está aí, no meio da vida, ao alcance de todos os que a acolheram com fé”.


Em outras palavras, na opinião desse autor, com a categoria de Reino de Deus, Jesus traduz a preocupação de Deus em libertar as pessoas de tudo quanto as faz sofrer e isso corresponde ao desejo universal de uma vida digna. Toda a atuação de Jesus vai no sentido de gerar uma sociedade mais saudável. Por isso, “não é um assunto meramente religioso, mas um compromisso de profundas consequências de ordem política e social”, que, reconhecidamente, já está em curso, mas só “no futuro alcançará sua plena realização”, como realização de uma “utopia tão antiga como o coração humano: o desaparecimento do mal, da injustiça e da morte” (PAGOLA, J. A., Jesus).


A presente seção possui um caráter apenas preparatório. Essencialmente, ela se concentrou na escolha de alguns autores e no resultado de suas pesquisas, como uma tentativa de apresentação do amplo panorama no qual está envolta a questão sobre Jesus, sua figura e mensagem, pelo menos, desde o advento da pesquisa histórico-crítica.


Nesse contexto, se tornou comum observar que compreensão sobre a categoria do Reino de Deus vai desde a sua interpretação como uma realidade meramente moral, fruto da mansidão religiosa do mestre nazareno até o símbolo da luta pela queda dos poderes opressores constituídos, numa lógica político-revolucionária. Na verdade, o que vimos foi o surgimento da tentativa, na época moderna, de se desenvolver a esperança da instauração de um mundo perfeito, sob a égide da ciência, de uma política cientificamente fundada e com a substituição da esperança bíblica do Reino de Deus pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor, realizado sem Deus (BENTO XVI, PP. Encíclica Spe Salvi, 23.30).


Nas próximas edições, nos voltaremos para as reflexões oferecidas por Joseph Ratzinger-Bento XVI. A intenção é a de colher alguma sua colaboração na discussão sobre o Jesus histórico e, mais especificamente, a interpretação que ele faz sobre o tema do Reino de Deus na pregação de Jesus. Aqui, se pode adiantar que ele é pregação de Jesus, ou seja, “mensagem do seu próprio mistério” e “princípio da cristologia” (RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I).