Cooperatores veritatis #3

Atualizado: 21 de fev.

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


O que acontece no Batismo? As homilias batismais de Bento XVI: terceira parte.


O batismo reverbera diretamente na vida dos pais e padrinhos. Devem eles vigiar sempre sobre os pequeninos filhos e afilhados que Deus lhes confiou. Devem eles ajudá-los a crescer, a aprender a conhecer Deus, a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente. Devem eles ser seus primeiros educadores na fé, oferecendo juntamente com os ensinamentos também os exemplos de uma vida cristã coerente. Devem, finalmente, ensiná-los a rezar e a sentirem-se filhos de Deus, membros ativos da família de Deus concreta, da comunidade eclesial.



Aqui se torna oportuna a consideração de que é a oração que constitui o segredo da perseverança cristã. Nossa cooperação, nossa disponibilidade e a renovação livre e cada vez mais consciente de nossa resposta positiva ao dom da existência do ressuscitado que Deus nos oferece em nosso batismo, fundamentalmente, se robustece, na opinião do Papa Emérito, não por outra atitude, certeza ou convicção, mas pela experiência da oração. O Cristo vivo é o cristão orante que aprende a conhecer e, isso cabalmente pode afirmar, porque – como tanto insiste Bento XVI – as mais perfeitas feições de Cristo nós a conhecemos por aquilo que seus discípulos captaram quando Ele mesmo, o Filho de Deus, estava em oração, estava falando com seu Abbá.

De certo, outros temas poderiam ser considerados quando se tenta aprofundar as homilias batismais do Papa Emérito. Entretanto, a consideração desse esquema que contempla as suas pregações sobre o sacramento do batismo de crianças compreendido como dom de vida, compêndio da vida de Jesus e como necessitado de atualização na vida intraeclesial, parece nos oferecer ao menos três importantes chaves de acesso ao pensamento de Bento XVI a respeito desse tema.


Pensamos que este mesmo esquema se pode tentar encaixar naquelas referências batismais presentes nas homilias feitas por Bento XVI, fora da Festa do Batismo do Senhor. Aqui, pensamos especialmente naquelas proclamadas nas missas da Vigília Pascal que Sua Santidade, o Papa Emérito, presidiu durante os anos de seu pontificado. E foram sete, ao menos, essas ocasiões. Agora, dirigindo-se diretamente aos catecúmenos, ele retoma os temas do batismo como dom de vida, como resumo do mistério de Cristo e como necessitado da nossa cooperação e permanente atualização em seu espaço próprio que é a Igreja.


Já na sua primeira celebração de uma Vigília Pascal como Papa, Bento XVI assinala que “o homem Jesus não estava só, não era um Eu fechado em si mesmo”. E prossegue: “Ele era um só com o Deus vivo, unido de tal modo a Ele que formava com Ele uma única pessoa. Encontrava-Se, por assim dizer, num abraço com Aquele que é a própria vida, um abraço não apenas sentimental, mas que englobava e penetrava o seu ser”[1]. E na dinâmica da pergunta e resposta sobre como podemos tomar contato com tal realidade, ele mesmo indica que isso se dá mediante a fé e o Batismo. Aliás, ele insiste dizendo que é “por isso, o Batismo faz parte da Vigília Pascal”[2].

A esse respeito, inclusive, podemos encontrar o seguinte em sua manifestação: o Batismo significa precisamente isto: que não está em questão um fato do passado, mas que um salto de qualidade da história universal chega até mim envolvendo-me para me atrair. O Batismo é algo muito diverso de um ato de socialização eclesial, de um rito um pouco fora de moda e complicado para acolher as pessoas na Igreja. É também mais do que uma simples lavagem, do que uma espécie de purificação e embelezamento da alma. É realmente morte e ressurreição, renascimento, transformação numa vida nova[3].


Sim. Fundamentalmente, conhecemos a realização da natureza profunda do sacramento do batismo quando reconhecemos nele um dom de vida, da dimensão definitiva da vida, da vida indestrutível, que Deus nos oferece em Cristo, através da Igreja. E, também aqui a vida de Cristo constitui o eixo em torno do qual deve girar a existência de quem assumiu para si mesmo esse dom.

O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida[4]. Recorrente é o uso que o Papa Emérito faz daquela que ele mesmo considera a breve autobiografia espiritual, que São Paulo nos ofereceu na sua Carta aos Gálatas: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E explica: “Vivo, mas já não sou eu. O próprio eu, a identidade essencial do homem – deste homem, Paulo – foi modificada. Ele existe ainda, e já não existe. Atravessou um não e encontra-se continuamente neste não: Eu, mas já não eu”[5].



Ao relacionar essa palavra de Paulo à experiência fruitiva do batismo, o Papa Emérito indica que “esta frase é a expressão do que aconteceu no Batismo. O meu eu próprio é-me tirado e inserido num novo sujeito maior. Tenho de novo o meu eu, mas agora transformado, trabalhado, aberto por meio da inserção no Outro, no Qual adquire o seu novo espaço de existência”[6].


O batismo cristão continua, então, sendo considerado por Bento XVI na perspectiva de um dom de vida. Através dele, assim como da ressurreição de Cristo, nasce uma vida nova, que une indissoluvelmente o Cristo com o cristão, que liberta o nosso eu do seu isolamento, faz com que nos encontremos num novo sujeito e que nos torna, por assim dizer, um em Cristo; e não um só, mas um, um único, um único sujeito novo.

Nas suas palavras, o dom de vida que o batismo produz se pode descrever da seguinte maneira: A grande explosão da ressurreição agarrou-nos no Batismo para nos atrair. Deste modo ficamos associados a uma nova dimensão da vida, na qual nos encontramos já de algum modo inseridos, no meio das tribulações do nosso tempo. Viver a própria vida como um contínuo entrar neste espaço aberto: tal é o significado do ser batizado, do ser cristão[7].


E, assim, é que podemos dizer, que também nas homilias proferidas durante as Vigílias Pascais que presidiu, Sua Santidade, o Papa Emérito Bento XVI, explora a realidade do sacramento do batismo como resumo da existência de Cristo. Inclusive, em certo sentido, essa dinâmica aparece representada através dessa breve série de suas manifestações nos anos seguidos em que lhe coube pregar na noite de Páscoa.


A esse respeito, agora, citamos textualmente algumas das suas afirmações: “o sacramento do Batismo, que nos faz participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo”[8]. “O Batismo é morte e ressurreição”[9]. “O Batismo não é apenas um banho, mas um novo nascimento: com Cristo, como que descemos ao mar da morte para dele subirmos como criaturas novas”[10]. “No Batismo: Jesus levanta-nos para Ele, atrai-nos para dentro da verdadeira vida”[11]. “No Batismo, junto com Cristo, já fizemos a viagem cósmica até às profundezas da morte. Acompanhados por Ele, aliás, acolhidos por Ele no seu amor, nos libertamos do medo. Ele nos envolve e nos leva, onde quer que formos – Ele que é a própria Vida”[12].


Finalmente, também somos obrigados a considerar que reaparece nas suas pregações nas Vigílias Pascais, a ideia da Igreja, como espaço privilegiado para a vivência dessa nova vida doada pelo Cristo ressuscitado através do batismo. Aqui, talvez, essa realidade seja por ele explicitada de uma dupla maneira. Uma que diz respeito à comunhão estabelecida entre os batizados e a outra que podemos verificar nas inúmeras referências feitas às práticas batismais eclesiais de hoje e aquelas da Igreja antiga.


Sobre a primeira, encontramos, por exemplo, o seguinte: As pessoas batizadas e crentes nunca são verdadeiramente estranhas uma à outra. Podem separar-nos continentes, culturas, estruturas sociais ou mesmo distâncias históricas. Mas, quando nos encontramos, reconhecemo-nos com base no mesmo Senhor, na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor, que nos formam. Então experimentamos que o fundamento das nossas vidas é o mesmo. Experimentamos que, no mais fundo do nosso íntimo, estamos ancorados à mesma identidade, a partir da qual todas as diferenças exteriores, por maiores que sejam, resultam secundárias. Os crentes nunca são totalmente estranhos um ao outro. Estamos em comunhão por causa da nossa identidade mais profunda: Cristo em nós. Deste modo, a fé é uma força de paz e reconciliação no mundo: fica superada a distância, no Senhor tornamo-nos próximos (cf. Ef 2, 13). Esta natureza íntima do Batismo como dom de uma nova identidade é representada pela Igreja através de elementos sensíveis[13].


Com palavras assim o Papa Emérito parece querer significar que somente vivemos através da comunhão existencial com Jesus Cristo, através do estar inseridos n’Ele que é a própria vida. Mas, simultaneamente, a sua compreensão de comunhão somente se realiza por uma efetiva inserção na Igreja. É que, para ele, a vida eterna, a bem-aventurança e a imortalidade, não a possuímos por nós mesmos, nem a temos em nós mesmos, mas ao invés por meio duma relação (com Cristo, é verdade, e isso ele diz explicitamente), e isso exige a vida eclesial. A nossa fé, recebida no batismo, recebida do ressuscitado, é a fé da Igreja, e ela é espaço onde a ressurreição é em nós gerada.

Outro aspecto que reforça essa ideia reside nas suas inúmeras referências às práticas batismais eclesiais de hoje e aquelas da Igreja antiga. Assim fazendo, ele descreve o batismo como algo muito diverso de um ato de socialização eclesial e que serviria apenas para acolher as pessoas na Igreja. Na verdade, o Bento XVI interpreta os elementos sensíveis deste sacramento como reveladores da natureza íntima do Batismo como dom de uma nova identidade e que torna manifesta a nossa pertença eclesial.


Nesse sentido, ele recorda que o ser batizados significa que o fogo da luz de Cristo desce ao nosso íntimo e que, por isso, na Igreja Antiga, o Batismo era chamado também o Sacramento da Iluminação[14]. De igual maneira, ele lembra da vitalidade desse rito da luz, que ainda hoje realizamos, quando nas promessas batismais, por assim dizer acendemos novamente, ano após ano, esta luz[15]. Outro rito por ele assinalado é aquele em que, “na Igreja Antiga, havia o costume de o Bispo ou o sacerdote, após a homilia, exortar os crentes exclamando: “Conversi ad Dominum – agora voltai-vos para o Senhor. Isto significava, antes de mais, que eles se viravam para o Oriente ou pelo menos para a imagem de Cristo na ábside ou para a cruz”[16].


Também o sinal do Círio Pascal não é deixado de lado, quando ele assinala que “na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do círio pascal, cuja chama é simultaneamente luz e calor”[17], fato que não nos permite esquecer que “cruz e ressurreição são inseparáveis”[18]. Nessa mesma perspectiva ele também assegura que “a vela batismal é o símbolo da iluminação que nos é concedida no Batismo”[19]. Não lhe é indiferente o símbolo da água, que segundo sua indicação possui dois significados opostos: “é o elemento da morte. E assim torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz”[20], mas que também possui outro significado, relativo ao lugar de sua fonte, “a nascente fresca, que dá a vida, ou também como o grande rio donde provém a vida”[21].


O Papa Emérito também recorda o significado do óleo, cujo simbolismo ele relaciona com “o óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo”[22]. Não faltam referências também ao simbolismo do rito do despojamento das antigas vestes e o revestimento das vestes brancas, que cumpre a função de sinalizar que todos somos “revestidos com a nova veste de Deus”[23], elemento que se verifica no batismo, mas que é um percurso que dura toda a vida. Ele também menciona o rito das renúncias e das promessas e insiste que, no seu conjunto, todos esses elementos e ritos procuram sinalizar e realizar a imagem do sacramento do Batismo. São todos considerados elementos da espiritualidade eclesial e que nos fazem participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo.


E é, assim, pois, que, ao que parece, o atual Papa Emérito Bento XVI procura responder aos questionamentos por ele próprio apresentados: O que acontece no Batismo? O que esperamos do Batismo? Mas como pode ser realizado? Como pode o Batismo dar a vida eterna? O que é a vida eterna?

[1] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [2] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [3] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [4] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 03 de Abril de 2010. [5] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [6] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [7] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 15 de Abril de 2006. [8] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 23 de Abril de 2011. [9] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 3 de Abril de 2010. [10] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [11] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 22 de Março de 2008. [12] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 7 de Abril de 2007. [13] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 22 de Março de 2008. [14] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 22 de Março de 2008. [15] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 22 de Março de 2008. [16] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 22 de Março de 2008. [17] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [18] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [19] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [20] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [21] Basílica de São Pedro, Sábado Santo, 11 de Abril de 2009. [22] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 3 de Abril de 2010. [23] Basílica Vaticana, Sábado Santo, 3 de Abril de 2010.