Cooperatores veritatis #2

Atualizado: 21 de fev.

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


O que acontece no Batismo? As homilias batismais de Bento XVI: segunda parte.


Conforme a descrição proposta pelo evangelista Lucas, que “em todo o seu Evangelho dirige um olhar atento à oração de Jesus, que o representa sempre como o orante – em conversa com o Pai –, diz-nos que Jesus recebeu o batismo enquanto orava”[1]. O tema do Jesus orante, aliás, aparece com significativa insistência nos escritos cristológicos do Papa Emérito. E os traços característicos de Jesus que dali emergem podem ser apreciados nas descrições que dele faz Bento XVI.



O Jesus orante é, então, apresentado como aquele que fala a partir da autoridade de Deus, seu Pai, como aquele que atualiza o Reino do Pai e que oferece a mesa compartilhada em virtude do perdão e da comunhão que ele mesmo cria e que somente Deus mesmo pode oferecer. O Jesus orante aparece como aquele para quem os discípulos pedem que lhes ensine uma oração comum – fato que demonstra uma consciência sobre terem “formado uma comunidade que deriva de Jesus”[1], que ora como ele, a partir dele e em torno dele – e que lhes proporcione uma abertura comum para Deus”[2].


O Jesus orante revela uma permanente conexão com Deus, o seu Abbá e, nesse sentido, revela o seu caráter peculiar, que é sua consciência de Deus ou, nas palavras do Papa Emérito, “expressão da relatividade total de sua existência”[3].


O Jesus orante, enfim, surge nos evangelhos e na consciência da Igreja como aquele que, no momento decisivo, encara a sua morte no Getsêmani, dirigindo-se a Deus como o seu Abbá e que, assim, revela aquela sua comunhão íntima, singular e única com Deus, seu Pai.

Efetivamente, o Jesus orante traduz uma espécie de delineador para a existência de Jesus. Nela, transparece a sua fé. Nela, é originada toda a sua atividade. Nela, suas escolhas se definem, suas opções fundamentais vão sendo suportadas e, assim, “os acontecimentos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se desvela o seu mistério, aparecem como acontecimentos que brotam da oração”[4], de sua inaudita relação com Deus. Para usar palavras suas, devemos afirmar com ele que “o que faz com que Cristo seja importante, é Deus, é sua filiação divina”[5], ou ainda, que “a pessoa de Jesus permanece obscura, irreal e inexplicável sem este fundamento em Deus” [6].


Agora, finalmente, se nos é tornado possível contemplar o grande e inaudito mistério do Pai celeste que proclama a Jesus como “o seu filho predileto e testemunha publicamente a missão salvífica universal, que se realizará de forma completa com a sua morte na cruz e a sua ressurreição”[7].


Em seu batismo no Jordão, Jesus Cristo entrega ao ser humano, antecipadamente, aquela sua existência que se poderá possuir apenas quando de sua ressurreição. E o faz não de maneira estranha à humanidade. Mergulhado pelo Batista, Ele está ali como o homem verdadeiro, isto é, como o Filho muito amado (cf. Mc 1,11), ao mesmo tempo totalmente outro e perfeitamente um como nós.

De fato, no entendimento do Papa Emérito, com batismo de Cristo no Jordão fica disponibilizada uma realidade totalmente nova para o ser humano, que antecipa a sua ressurreição e a que todos temos acesso pelo sacramento do batismo, evento através do qual Deus mesmo nos entrega a existência do ressuscitado e nós a assumimos como sendo o nosso novo modelo de vida. A vida cristã, aliás, é a existência do ressuscitado, recebida no batismo e atualizada através da oração.





No fundo, para Sua Santidade, o Papa Emérito Bento XVI, é somente a partir de tais considerações que poderemos alcançar o significado profundo do batismo cristão.


O batismo de Jesus já manifesta, antecipadamente, o que viria o Filho de Deus a manifestar em sua existência e, perfeitamente, realizar no seu mistério pascal, e o sacramento cristão do batismo se torna para nós um selo – que imprime caráter – daquilo tudo que nós, os filhos de Deus, devemos existencializar em nossa vida e que, de modo pleno, se tornará manifesto quando de nossa definitiva ressurreição. Isso, evidentemente, quando vivenciamos a fé recebida no batismo, na perspectiva da morte e da cruz, e da vida nova e da ressurreição. Não deve haver espaço para dívida: “o ponto da sua antecipação da morte tornou-se para nós agora o ponto da antecipação da nossa ressurreição”[8], opina Bento XVI.

O Batismo permanecerá durante toda a vida um dom de Deus, que imprimiu o seu selo nas nossas almas. Mas depois será a nossa cooperação, a disponibilidade da nossa liberdade a dizer o "sim", que deve tornar eficaz a ação divina[9]. Assim considerado, o sacramento do batismo possui um lugar próprio de seu desenvolvimento. É, pois, na Igreja que podemos encontrar o espaço privilegiado da nossa correspondência ao que Deus nos oferecera no primeiro sacramento da iniciação cristã. O Papa Emérito Bento XVI, inclusive, reforça que “a família de Deus se constrói na realidade concreta da Igreja. A adoção como filhos de Deus, do Deus trinitário, é assunção na família da Igreja e, contemporaneamente, inserção como irmãos e irmãs na grande família dos cristãos”[10].


A Igreja se torna, então, o lugar em que se responde positivamente ao desafio de viver verdadeiramente a vida. A Igreja aparece, assim, como o lugar em que se permite crescer a existência do Cristo ressuscitado que o sacramento do batismo chancelou em nossa, antes, miserável existência. Enfim, a Igreja surge como espaço próprio da negativa aos ataques da morte, muitas vezes travestida de vida, e da acolhida ao dom da verdadeira vida, presente no rosto de Cristo. É na Igreja, a família de Deus, que se torna possível a resposta ao dom do amor, que é o próprio Cristo, com que Deus vem ao nosso encontro.


[1] RATZINGER, J., Compreender a Igreja hoje, p. 14. [2] RATZINGER, J., Compreender a Igreja hoje, p. 14. [3] RATZINGER, J., Introdução ao Cristianismo, p. 168. [4] RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I, p. 124. [5] RATZINGER, J., Dogma e Anúncio, p. 45.46. [6] RATZINGER, J., Jesus de Nazaré. v. I, p. 11. [7] Capela Sistina, 11 de Janeiro de 2009. [8] JN. Vol. I, p. 33. [9] Capela Sistina, 7 de Janeiro de 2007. [10] Capela Sistina, 7 de Janeiro de 2007.