Cooperatores veritatis #1

Atualizado: 21 de fev.

Breves reflexões em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI


Nascido em Marktl am Inn, no território da Diocese de Passau (Alemanha), no Sábado Santo de 1927, Joseph Aloisius Ratzinger, completa 95 anos de idade em 16 de abril do próximo ano. Sujeito de extraordinária envergadura teológica, é considerado um dos maiores pensadores da história recente da Igreja. Depois de oito anos de pontificado, Bento XVI, apresentou sua renúncia a todaa Igreja Católica e passou a viver, segundo palavras suas, “no serviço da oração” em prol da Igreja. Seus 45 anos de sua ordenação episcopal se completarão no próximo dia 28 de maio de 2022 e, há poucos meses, em 29 de junho de 2021 foi celebrado o seu jubileu de 70 anos de ordenação sacerdotal. Por essas e muitas outras razões gostaríamos de homenageá-lo, publicando alguns textos sobre o seu pensamento.

Nossa intenção fundamental, não será a de produzir uma biografia a seu respeito. Muito menos, nos interessa confeccionar uma obra que rastreie os aspectos fundamentais e peculiares presentes em seus escritos. Na verdade, nosso objetivo último é procurar demonstrar, através de reflexões sobre temas pontuais, a profundidade e a solidez de sua pregação sobre a Palavra de Deus, bem como sua fidelidade à fé que recebeu da Igreja de Jesus Cristo.


Nesse sentido, iniciamos uma série de textos em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI, com um título que resgata o seu lema episcopal “Cooperatores veritatis”. Os textos aqui postados, correspondem originalmente a publicações feitas no jornal "Testemunho de Fé" da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Iniciamos com algumas reflexões sobre suas homilias batismais. Esse tema constará de três partes. Depois, nas próximas edições seguiremos apresentando outros temas.


O que acontece no Batismo? As homilias batismais de Bento XVI: primeira parte.


O que acontece no Batismo? O que esperamos do Batismo? Vós destes uma resposta à entrada nesta capela: esperamos para os nossos filhos a vida eterna. É esta a finalidade do Batismo. Mas como pode ser realizado? Como pode o Batismo dar a vida eterna? O que é a vida eterna?

Com estes questionamentos, Sua Santidade, o Papa Emérito Bento XVI iniciou a homilia, na Capela Sistina, na celebração eucarística da Festa do Batismo do Senhor, em 8 de janeiro de 2006. Aliás, durante os anos de seu pontificado, ele teve a oportunidade de presidi-la em oito ocasiões e, em todas elas, foi administrado o sacramento do Batismo a algumas crianças.


Traço característico das reflexões que fez, naquele contexto, o aprofundamento sobre a verdade da vida – a vida boa; a vida verdadeira; a felicidade também num futuro ainda desconhecido[1] – o modo como encontrá-la, compreendê-la e possui-la, juntamente com a referência indispensável à Igreja, a família de Deus, dão o tom das grandes mistagogias oferecidas, em suas pregações, sobre o primeiro sacramento da iniciação cristã.


Os dois temas, o da vida e o da comunhão em sua realização plena, inclusive, se unem e manifestam aquela realidade que exprime a opção fundamental da existência cristã. Essa, como decididamente o próprio Papa Emérito assinala em sua primeira carta encíclica, a Deus caritas est, não pode ser traduzida por “uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”[2], Jesus Cristo. A meta de vida do crente fica assim delineada pela imitação, na vida, da existência histórica do Filho de Deus encarnado (cf. Jo 3,16), sendo a Igreja o lugar específico da construção e compartilhamento dessa realidade concreta, cujo núcleo central é a experiência do amor.


O Batismo é dom de vida[3]. Acima de tudo, esse seu modo de descrever o primeiro sacramento da iniciação cristã tem implicada uma marcante consideração sobre a iniciativa divina que procura o ser humano, a despeito de sua condição de pecador. As realidades operadas pelo sacramento revelam a irrevogável decisão e a inabalável disposição de Deus em gerar (e regenerar) novos filhos para si. Sendo dom de vida, o Batismo constitui o sacramento do sim de Deus para o ser humano. Sim que Deus se digna dar de modos muito diversos e que de maneira inconteste e irrenunciável ficou chancelado pelo mistério de seu Filho Jesus Cristo.


Nesse momento, cabe uma importante sinalização. O modo como o Papa Emérito compreende os sacramentos em geral e, nesse caso, evidentemente, o Sacramento do Batismo produz implicações diretas com relação à sua interpretação sobre a pessoa de Deus. Melhor: é pelo esclarecimento do conceito de quem seja Deus, para Bento XVI, que melhor se elucida a natureza dos sacramentos e, com isso, do primeiro sacramento da iniciação cristã. E sobre Deus e sobre o seu modo de ser como dom, o nosso autor assim se manifesta:


“Não fica mais na obscuridade. Não aparece mais como o mistério insondável do cosmo em geral, mas como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó; mais precisamente como o Deus de Jesus Cristo: como o Deus que ‘tem para o homem’ e que vem, inclusive, definido pelo seu estar com os homens. Em uma única palavra: Ele aparece como o Deus pessoal, que é Conhecimento e Amor e que está, portanto, em relação a nós como Palavra e Amor. Palavra que nos chama e Amor que nos une”[4].

Se em seu mistério eterno, na vida intradivina, Deus existe como dom, no tempo, na história e na vida humana é como dom, evidentemente, que Ele se manifesta para conduzir o ser humano à realização, também pelo dom-de-si, de sua própria existência. É, assim, pois, que fica definida a qualidade primeira da vida humana: vida como dom!





“Todos sentimos”, adverte o Papa Emérito, “todos percebemos interiormente que a nossa existência é um desejo de vida que invoca uma plenitude, uma salvação. Esta plenitude de vida é-nos dada no Batismo”[5]. No Batismo é essa vida nova que recebemos. E é nela – e somente nela – que somos feitos capazes para a relação pessoal com Deus, na vida, na história e por toda a eternidade, assim como para a relação com o próximo, com o cosmo inteiro e, ainda, conosco mesmos.


No fundo, todo o mistério de Cristo no mundo pode resumir-se com esta palavra, “Batismo”[6]. Os evangelhos sinóticos são unânimes em afirmar que Jesus iniciou seu ministério depois de ser batizado por João (Mt 4,12-17; Mc 1,9-11; Lc 4,14-15). E, desde aquele evento, conforme registra o Papa Emérito, já podemos identificar algumas posturas permanentes da vida inteira de Jesus.


A primeira, é que ele se mistura aos que se percebem necessitados de Deus, e entra “na multidão triste pecadores, que”, naquela ocasião, “aguardam nas margens do Jordão”[7]. No batismo administrado por João estavam contidos, necessariamente, “uma confissão de pecados e um pedido de perdão para um novo começo”[8] e, nesse sentido, também uma irrenunciável disposição para se viver em função da vontade de Deus.


Ao inserir-se voluntariamente nesse movimento – o da autoinclusão na aglomeração de pecadores para o mergulho nas águas do Jordão – Jesus reivindica para Si a prerrogativa de assumir como sendo seus os dramas todos e os pecados todos de todos os que pelo mistério de sua encarnação se lhe tornaram solidários. O peso da culpa da humanidade toda, de maneira antecipada, é mergulhado com Cristo no Jordão, na medida em que ele se une aos pecadores e este seu gesto inaugura aquele repetido em seu ministério e tornado definitivo na cruz.


A história toda de Jesus fica assim dimensionada como história de expiação: ele insere-se no lugar dos pecadores, vive em função dos pecadores e morre e ressuscita por causa dos pecadores. Não para isentar os pecadores de suas responsabilidades pessoais, mas para colocá-los em efetivas condições de cumpri-las, agora, renovados pelo amor e a graça de Deus. E aqui se pode adentrar no espírito da expiação, pois, em Seu Filho, não é outro senão Deus mesmo quem nos reconcilia e introduz na história humana a novidade da vida cristã, perfeitamente manifestada na existência nova de Cristo ressuscitado.

[1] Capela Sistina, 8 de janeiro de 2006. [2] DCE 1. [3] Capela Sistina, 8 de janeiro de 2006. [4] OCJR. Vol. XI, p. 193. [5] Capela Sistina, 13 de Janeiro de 2008. [6] Capela Sistina, 13 de Janeiro de 2008. [7] JN. Vol. I, p. 32. [8] JN. Vol. I, p. 33..