Comentário a Coleta do 7º Domingo do Tempo Comum - Ano C



Praesta, quaesumus, omnipotens Deus, ut, semper rationabilia meditantes, quae tibi sunt placita, et dictis exsequamur et factis.


Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, procurando conhecer sempre o que é reto, realizemos vossa vontade em nossas palavras e ações.

A oração coleta do 7º Domingo do Tempo Comum, encontrada já no séc. VII no chamado Sacramentário gregoriano (n. 202, 36), figurava no missal de 1962 no VI Domingo depois da Epifania. Nos apresenta uma motivação e uma petição unidas num todo muito significativo:


Motivação: que procuremos “conhecer sempre o que é reto”


Petição: que realizemos a vontade divina “em nossas palavras e ações”


A motivação, no original latino, vai falar em semper rationabilia meditantes – o que podemos traduzir literalmente como “meditando sempre no que é razoável, no que é segundo a razão”. Ao traduzir “rationabilia” por “o que é reto”, a tradução brasileira, muito sabiamente, mantendo a fidelidade à substancia do texto original, parece ecoar aquilo que diz Santo Tomás: “Como a alma racional é a própria forma do homem, é inerente a qualquer homem a inclinação natural a que aja segundo a razão. E isso é agir segundo a virtude.”[i] Meditar no que seja racional é próprio do homem, animal racional, dotado por Deus de uma alma espiritual. É conhecer o que seja reto, ou seja, é agir segundo a virtude.


Também o livro bíblico da Sabedoria nos dá uma pista para compreender o sentido profundo dessa oração. Meditar no que é racional é deixar-se imbuir pela Sabedoria do alto, que sabe o que agrada aos olhos divinos, que sabe “o que é reto e conforme as vossas ordens” (Sb 9,9).


Ainda sobre a expressão “rationabilia meditantes”, pode-se destacar a presença de uma expressão semelhante em São Paulo. Na carta aos Romanos, iniciando o capítulo 12, o Apóstolo vai falar, no original grego, de uma “logiken latreían”, ou como traduzirá a Vulgata latina, de um “rationabile obsequium”, um “culto racional”, por vezes traduzido também como “culto espiritual”. De fato, ao convidar os cristãos a se oferecer como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, São Paulo fala daquela ativa vivencia interior de todo batizado que participa da vida divina pela graça. Esse “rationabile obsequium”, esse “culto espiritual”, se concretiza perfeitamente na sagrada liturgia, onde cada fiel é chamado àquela participação “plena, consciente e ativa”, para usar a expressão do Concílio Vaticano II (Cf. SC, n. 14), no Mistério Pascal de Cristo presente na ação pública da Igreja. Daí pode-se compreender perfeitamente o sentido do Cânon Romano, a Oração Eucarística I, que pede que o sacrifício oferecido no altar seja uma “oblationem rationabilem”, uma “oblação racional” aos olhos de Deus, pois, antes de tudo, é o sacrifício do Cristo Homem-Deus, que, ao se encarnar, sendo ele o próprio “logos” divino, veio fazer parte da nossa vida racional. Sobre isso vale a pena relembrar o comentário feito pelos bispos na preparação da XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos de 2005, que teve a Eucaristia como tema:


“O Cânone Romano e a anáfora de São João Crisóstomo definem a Santa Missa como ‘oblationem rationabilem’ e ‘logikèn latreían’, o tornar-se evento da palavra divina, em que participam o espírito e a razão. Aquele que é a palavra, o Verbo, dirige-se ao homem e espera dele uma resposta compreensível, racional (rationabile obsequium). Assim, a palavra humana torna-se adoração, sacrifício e ação de graças (eucharistía). Este ‘culto espiritual’ (cf. Rom 12, 1) é o coração da ‘participação’ ativa e consciente do povo de Deus no mistério eucarístico, que atinge a plenitude na Sagrada Comunhão.”[ii]


Com uma visão mais clara da motivação da coleta desse domingo, torna-se mais clara ainda sua petição. Ela reflete aquilo que o Cristo repete diversas vezes nos Evangelhos: não veio ele para fazer sua própria vontade, mas sim a daquele que o enviou. Fazer a vontade daquele que nos criou em palavras e ações é seguir nossa natureza racional, é agir virtuosamente.


Que cada um possa, motivado pela oração litúrgica desse domingo, meditar melhor nos seus atos e palavras, perguntando-se sinceramente: o que tenho feito, o que tenho dito, é conforme a reta razão? Tenho de fato oferecido a Deus um verdadeiro “culto racional”? Tenho procurado “conhecer o que é reto”? Que a ativa participação na liturgia e nos sacramentos possa a cada dia formar a nossa consciência na busca por fazer sempre a vontade divina, por buscar sempre corresponder com nossa vida ao chamado de Deus a sermos autenticamente seus filhos, rendendo-lhe o verdadeiro “culto espiritual” de nossos corações.

[i] Suma Teológica I-II, q. 94, a. 3 [ii] Lineamenta da XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos - A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja, n. 1. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20040528_lineamenta-xi-assembly_po.html