A prática do abandono total a Deus

Atualizado: 27 de jan.

A ciência da vida espiritual não consiste tanto em conhecer a obrigação de nos darmos a Deus como em saber o modo de cumpri-la. Felizmente para a alma, não há nessa prática nenhum segredo. O dom de si é um ato de vontade livre. É um impulso do coração que a leva a submeter-se completamente a Jesus Cristo.

Não é, pois, um ato de inteligência. Não é um raciocínio, nem um estudo, nem um esforço qualquer de reflexão. A inteligência pouca ação tem na aquisição da santidade. Deus gosta de se revelar aos ignorantes e aos humildes. Nestas almas, a sua influência não encontra obstáculos e não sofre nenhum exame.

Não é também um ato de imaginação. Para fazer de um modo completo a doação de todo o ser, a alma não precisa formar nenhuma imagem sobre a perfeição e a beleza de Deus, sua bondade paternal, o seu poder soberano, o seu domínio ilimitado sobre a criatura. O trabalho da imaginação requer um esforço de que nem todas as almas são capazes. Deus é espírito e não pode ser captado por nenhum sentido. Para alcança-lo basta um simples ato de vontade.

A doação de si não é tampouco uma questão de sentimento. O sentimento é esse amontoado de afeições, desejos, alegrias e esperanças que o apetite sensível produz em nós. Nesta parte inferior do homem, agita-se um mundo de emoções e impressões.

Apesar de escravo e infinitamente abaixo da vontade, o sentimento aspira a ocupar o primeiro lugar, e não raras vezes o consegue entre as almas piedosas. Quem quiser dar-se a Deus deve pôr o sentimento no lugar que lhe cabe, o último, e jamais se deixar influenciar pelos seus queixumes e lamentos.

A obra da santidade é o trabalho da vontade auxiliada pela graça. O sentimento, quando bem orientado, pode tornar-se um valioso auxiliar. Mas, se se permite que usurpe a função da vontade ou simplesmente que se misture nas suas atribuições, torna-se um inimigo que deve ser combatido.

Para dar-se a Deus, a alma não precisa do sentimento. Não é necessário que experimente uma sensação de contentamento ou de bem-estar ao pensar que se entregou a Ele. Enquanto a vontade se abandona a Deus e lhe entrega todo o seu ser, a parte sensível pode experimentar desolação e temor. Enquanto a parte superior está inundada de luz, o sentimento pode estar mergulhado nas trevas mais profundas.

Ó minha alma! Na tua vida, dá à vontade o lugar que lhe compete. Não te deixes conduzir como um cego pelo sentimento e pelos caprichos que ele produz. O sentimento, por si mesmo, nada pode aumentar ou diminuir ao ato pelo qual te dás a Deus.

Entrega-te a Deus por um ato de vontade, em que só intervém o espírito. Não é preciso revesti-lo de fórmulas, emoldurá-lo em belas considerações, torná-lo sensível com palavras ou temperá-lo pela emoção, pois tudo isso está infinitamente abaixo dele.

O dom de si é o encontro de dois espíritos, de Deus e da alma, que se opera no centro da vontade por um pleno contato de amor, mas inteiramente espiritual. Os sentimentos muitas vezes não experimentam nenhuma repercussão, e a própria inteligência nem sempre o percebe.

Simplifiquemos a vida espiritual, tenhamos dela uma noção verdadeira, e veremos como é acessível e substanciosa. Deus, no entanto, não nos pede para excluir a sensibilidade. A alma deve saber que o sentimento não é necessário ao verdadeiro dom de si; uma vez enraizada nesta convicção, deve dar-se conforme a graça que Deus lhe concede, e Deus muitas vezes até lhe concede consolação e provoca a emoção. Ele quer somente que não lhe dê uma importância que não tem e que, nos dias de desolação e obscuridade, não pense que Ele a privou de sua bondade e dos seus cuidados paternais.


(Trecho do livro "O dom de si", de José Schrijvers. Editora Cultor de livros. São Paulo, 2015)