A murmuração como resposta de um coração dividido

Atualizado: 6 de Jun de 2020



Cada vez mais a sociedade atual apela para uma vivência pessoal dentro de uma perspectiva de perfeição imanente e/ou material. É muito fácil constatar isso quando ligamos a televisão, abrimos as redes sociais e vemos seus comerciais, textos e vídeos que mostram a todo custo que aquilo que não agrada deve ser trocado. Não estamos falando aqui apenas dos objetos, mas da objetificação do ser nas relações, levando a uma desordem que em última instância conduz a um grande corrente de descartes.


Nesta sociedade que prega que o homem é aquele que constrói o objeto a seu molde, é possível enxergar que nas relações interpessoais o eu ao olhar para o tu, cobra dele algo que em si mesmo não existe, e, quando não consegue enxergar a perfeição que lhe corresponda no outro, começa a cair na murmuração, passando pelos conflitos até desembocar no descarte. Este fato é evidente em todos os âmbitos da vida humana, desde o núcleo familiar até as relações de amizade e profissionais.

Quando nos colocamos no patamar de superioridade em relação ao demais, impedimos que as relações verdadeiras e frutuosas que tanto buscamos ocorram de modo autêntico, porque ao invés de enxergarmos a nossa realidade e a do outro de modo “nu e cru” para construirmos um vínculo que tende a um aperfeiçoamento mútuo, preferimos viver uma vida inteira numa capa de felicidade que esconde por detrás uma vida totalmente frustrada.


Na verdade, o que ocorre de fato é um esconder-se numa ideia de si que não corresponde de modo algum à profundidade do seu ser. É como se, nessa postura de superioridade, o homem tentasse esconder aquilo que realmente é, que faz parte de si, suas limitações, fraquezas, medos, incertezas. Contudo, esta postura leva a negação da sua própria história, da sua existência. Acaba, pois, sendo uma via totalmente oposta a da interioridade proposta por santo Agostinho e expressa em muitas de suas obras, mediante a qual o homem ao voltar-se para o seu exterior enxerga a si, e mergulhando de modo profundo no mais íntimo do seu ser, encontra lá a sua plenitude, a sua Felicidade, Deus.


Ao nos criar Deus nos fez a sua imagem e semelhança, e, nós, ao nos colocarmos num patamar de superioridade em relação a tudo e a todos, tendemos a querer troca-la por uma imagem imperfeita construída por nós mesmos.

Ao nos Criar Deus tinha a Cristo como modelo, e nós, quando olhamos para as nossas relações acabamos muitas vezes por nos colocar como autorreferenciais, como único modelo, esquecendo-se deste grande valor. Deus é esquecido, e onde o Senhor não está, não por sua vontade, mas por fechamento do homem a Ele, não há esperança, alegria e confiança, resta apenas à murmuração.


Desse modo, a murmuração consiste justamente num ataque direto a Deus que tudo providencia por amor e para o bem dos homens. Em outras palavras, a murmuração é a expressão do coração daquele que está dividido ou que já não mais espera em Deus, mas somente nas suas forças humanas.

O homem interior acaba dando lugar àquele que muito fala e nada diz, que em nada contribui, pois não há uma amálgama entre palavra e vida. É interessante notarmos que o primeiro mandamento que Deus deu a Israel foi “Ouve Israel[1]” para Depois enumerar o seu modo de proceder. Assim, ouvir a Deus implica em parar e permitir que Ele fale, e para isso é necessário um cessar de falar de nossa parte, de modo que o silêncio seja a nossa resposta diante de sua grandiosidade.


O homem que muito fala, muito reclama, para o qual nada está bom deve enxergar esses elementos como uma tentativa de fuga do silêncio, para fugir de si e da resposta que deve dar a Deus.

O silêncio leva ao homem a uma experiência de renovo, pois que, nos coloca diante da grandiosa luz de Deus perante a qual as nossas imperfeições se tornam patentes, exigindo de nossa parte uma busca de configuração ao Sumo modelo, Cristo.

Por fim, podemos ousar afirmar que a murmuração e a dificuldade nos relacionamentos interpessoais decorrem da dificuldade de nos relacionarmos com Deus de modo íntimo e concreto, de nos reconhecermos criatura e filho, que precisamos de cuidados, tal qual uma criança que necessita do leite materno.



Francisco Évison Isaías Lopes

[1] Cf. Dt 6,3

72 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

© Copyright 2020  |  In Veritatem  |  Todos os direitos reservados

Quem procura a verdade busca a Deus
Logo_InVeritatem-01.png
  • Facebook
  • YouTube