A era da revolução sexual e a sociedade do consumo

Atualizado: 26 de jan.




Desde o popular livro de Wilhelm Reich, La révolution Sexuelle, de 1931, o tema tem ocupado todos os cenários da vida social. Não é preciso muito esforço para constatar isso. Quem acompanhou os jornais, as revistas, as telinhas e passou boa parte de sua vida de olho nas telonas é testemunha de que alguns costumes e ideias sofrem mudanças. Mesmo aqueles que nasceram nos tempos da internet já conseguem perceber significativas mutações no comportamento ou trato de determinados assuntos, dentre eles o sexo. Até a arte eterna, os livros, são prova deste fato civilizatório. Títulos como O segundo sexo, A dialética do sexo, Política sexual, O outro sexo e Eros e revolução se tornaram bestsellers, ocupando lugares nas prateleiras e na construção do pensamento de nossa geração.


Estudos etnológicos mostram que muitas civilizações tinham códigos sexuais diversos que, ao serem confrontados, geraram uma devastadora relativização desses costumes, criando o produto dessa revolução intelecto-cultural, por nós conhecida como “revolução sexual”, que entende a cultura sexual como permissividade e liberdade sem limites ou contrassensos. Tudo isso foi recebido por alguns como decadência ou perda do senso moral, para outros como progresso humano. O que há em comum entre um e outro é a profunda ligação existente entre a sexualidade e a cultura.


A civilização defensora de uma família numerosa, de uniões monogâmicas e entre pessoas do mesmo sexo, de relações depois do casamento e de uma conduta moral legitimada por um legislador Divino estava sendo contrariada por um pequeno grupo organizado com a bandeira da “libertação sexual”. Essa revolução foi aos poucos ganhando aliados na moda, inicialmente com invenção da minissaia, na indústria farmacêutica com a criação de anticoncepcionais, mais tarde com a venda em massa de preservativos e pílulas, chegando a ocupar o primeiro lugar em todas as áreas de consumo: cinema, músicas, livros, produtos farmacêuticos e cosméticos até no auxílio de venda de outros produtos em comerciais.


Para os seus grandes teóricos, a revolução sexual era um modo de libertar o proletariado da sociedade burguesa que, segundo eles, reprimia a sexualidade para que se gastasse toda a força no consumo. Essa é uma ideia chave do pensamento de Hebert Marcuzzi em sua obra Eros e revolução. Não se trata aqui, segundo ele, de luta pela liberdade sexual, mas de uma guerra do comunismo contra o capital. A dita revolução deve destruir o opressor que só visava o lucro. Bem ilustra esse pensamento a frase que se tornou hino da geração woodstock: faça amor, não faça guerra.


Quando Alvin Toffler em 1971 mostrou ao mundo a relação entre a sociedade de consumo e a banalização da sexualidade ou, em suas palavras, a sociedade do “prê-à-porter”, do descartável, que favorece a aventura sem consequências, o amor breve, o amor a frio, toda essa mirabolante teoria de que a repressão sexual era apenas uma forma de poder e controle econômico cai por terra. Se apresenta o contrário: A chantagem, a pressão de grupos e da opinião pública impuseram comportamentos que aumentaram as vendas de grandes empresas. No mundo em que as coisas eram feitas para durar, agora tudo é descartável. O sexo livre e a mentalidade erotizada se tornam um motor econômico e direcionam os olhos para o consumo.



A nova civilização erotizada não só passou a consumir mais, como também virou produto. O fenômeno das coisas dadas de graça é uma marca desse novo mundo dos negócios. Corpos, desejos e drogas tomam conta das vitrines, e a quantidade e rotatividade dessas mercadorias são espantosas. A sexualidade transformou-se em um instrumento, foi coisificada, fragmentada, reduzida a mero objeto. A indústria pornográfica ganha espaço e se torna rentável. Nasce assim um machismo radical e a famosa guerra dos sexos que mais tarde é responsável pelo surgimento de um feminismo radical.


A dita “liberdade sexual” gerou uma angustiosa ditadura sexual. O costume americano do dating transformou rapidamente a ligação entre os adolescentes numa obrigação. Quem se relaciona sexualmente é tido como descolado, enquanto o outro não é bom o bastante. Estes segundos se transformam em mais um nicho de consumidores, agora desesperados para alcançar os primeiros. O cúmulo é a propensão para relações cada vez mais prematuras e variadas. Em cadeia se colhe uma série de problemas que vão desde a perda da infância, o surgimento de cataclísmicas formas de relações, até o surgimento de famílias desestruturadas, pais ausentes e abortos.


Diante disso tudo, cabe-nos indagar sobre as exigências atuais da fé. O cristão não pode ignorar a realidade e as mudanças ao seu redor. Também não é um cego seguidor da última moda, mas é alguém que se mantém lúcido e assume responsavelmente seu papel na construção da sociedade, principalmente durante as grandes convulsões da história. Cabe a ele, no meio das tensões inevitáveis, elaborar uma nova síntese em conformidade com a dignidade da pessoa humana e a lei do Criador.