A educação salvará o mundo, mas que educação?




Nos palanques políticos, nos discursos dos artistas e nos manifestos dos ativistas, é comum encontrarmos um discurso que apresenta a educação como resolução para muitos ou até todos os problemas. Mas na maioria dos casos dar-se a educação uma significação muito distante de seu verdadeiro sentido. Por isso, torna-se necessário responder o que realmente é educação e qual o seu papel na sociedade.


Ao observarmos a história, sobretudo a do pensamento, percebe-se que a preocupação pela formação sempre ocupou entre os homens um lugar de destaque. Para nos localizar, lá entre os gregos já se produzia um discurso a respeito. O próprio Platão no livro três da República, escreve que “a educação é a virtude perfeita que por toda vida faz-nos abraçar ou aborrecer aquilo que merece o nosso amor ou a nossa aversão”. Aristóteles por sua vez quando questionado sobre a educação, respondeu: “educar é conduzir o homem à criação de bons hábitos”.


Partindo de sua etimologia, a palavra educação procede do latim educere, que significa extrair, tirar, desenvolver. Como acertadamente afirmam alguns: educar é tirar de dentro, da profundidade. Pode-se dizer ainda que educar é conduzir, alimentar, explicitar, e para usar um termo bem grego digamos também, parir. Assim educação é, essencialmente, o processo contínuo de desenvolvimento e formação da pessoa humana como um todo. Começa no nascimento e se estende até a morte.


É um processo vital que precisa da concordância de todas as forças que integram o homem, naturais e espirituais, conjugadas pela ação consciente dos educadores e pela vontade livre daquele que é educado levando-o a atualizar todas as suas potências. Sem reduzi-la à mera preparação para fins exclusivamente utilitários ou para o desenvolvimento de características parciais da personalidade.


O centro do homem, onde é construído todo seu aparato intelectual é a alma que é composta de duas faculdades: a inteligência e a vontade. Cada uma tem um objeto próprio. A inteligência tende a verdade e a vontade o bem. Como a verdade é o que guia a nossa inteligência e a vontade é o que nos conduz a querer o bem e este bem só é querido se estivermos livres ou então nos custará, será sofrido, penoso. Concluímos que para promover a educação é preciso estar livres, para amá-la e assim buscá-la como um bem a ser conquistado.


A liberdade é o ato perfeito da vontade. Sem ela não conseguimos atingir o bem que só é conquistado se o intelecto humano for iluminado pela luz da verdade, se não, corre o risco de cometer um sério engano. Principalmente em nosso tempo, quando vivemos num caos intelectual legado pelo relativismo. Por isso se faz urgente o resgate da inteligência e da verdade. Afinal, inteligência e verdade formam o fundamento inicial da educação.


Ao analisar o processo educativo, principalmente aquele que aplica a nova pedagogia em nosso país, parece que se faz pouco caso pelo aprendizado que é agravado por um realce ao método ou pela tomada do método como fim em si mesmo. Há uma preocupação exagerada com os métodos em detrimento do fim.


Voltando a etimologia, a palavra método vem do grego ódos, que significa caminho. No caso, caminho pelo qual se atinge um objetivo, um fim. Metodologia é a arte de dirigir o espírito na investigação da verdade. Imaginemos uma multiplicação de métodos que ignoram o fim. Ou pior, métodos que acreditam ter fim em si mesmos. O resultado de tudo isso é um caminhar vazio e sem sentido. Não há liberdade nisso, mas prisão. Não se dá nenhuma passo adiante, mas ficam todos estáticos no meio do caminho. O professor em vez de contribuir para o processo educativo, se torna um medíocre animador de grupos, ou num adestrador que acredita estar educando.


Para ilustrar trago as fortes palavras do grande Dom Lourenço, que foi reitor do colégio São Bento no Rio, falando de um tipo de professor;


“Não lhe resta senão a alternativa de refugiar-se na função de animador de grupo, o que significa, concretamente, em refugiar-se no método. Não sei se é por isso que se multiplicam no Brasil as escolas de pedagogia. Certo é que o professor-pedagogo, sem o objetivo de trabalhar um conteúdo, é transformado na figura meio ridícula daquele que duelava com os ventos. O recurso é multiplicar filmes, slides, videocassete, computador, jogos, recreação. Se fizer tudo isso, será bom professor: não terá ensinado nada, nada se terá aprendido, mas incentivou-se a sociabilidade dos alunos e o tempo passou distraído. E isso é o que vale. (1991:29):”

Obviamente o problema não é o uso dos recursos didáticos, o grande mal é tomar os meios como fim. É perder de vista o verdadeiro objetivo da educação. Não é difícil perceber que no cerne do processo educativo deve estar a verdade. Sua procura e a clarificação da inteligência são sinônimos de amadurecimento humano. Parece óbvia a importância da verdade e das virtudes na educação. No entanto, quando se observa a prática, estes conceitos essenciais são relegados ao esquecimento.


Hoje em dia ouve-se muito falar da formação de cidadãos críticos, quando na verdade o que se propõe é um amansar das pessoas. Não se permite em muitos locais de ensino a liberdade para formação do cidadão crítico. Se fomenta repetir as fórmulas que são tidas como críticas. Aquelas que já vêm prontas e a maioria toma como verdadeiras sem sequer pensar sobre elas. Em nome da crítica se adestra pessoas para repetir o que acredita aquele que diz educar. Assim a verdade vai se perdendo pois o educando não tem liberdade para forma-la.


É preciso, mais do que nunca para salvar o processo educativo despertar os alunos para a crítica. Tendo em conta que a crítica exige, necessariamente, exame, análise e avaliação. Que será impossível torna-los assim enquanto houver uma preguiça de pensar, de examinar, de analisar. Quando se mostrar a relevância da avaliação e esquecer toda a proposta voluntarista que propõe apenas um repetir inconsciente. As vezes descaradamente de uma ideologia.


Nessa linha ainda nos diz o grande reitor, quando escreveu “Ajudar a pensar, sim. Conscientizar, não”. Neste texto ele tinha uma preocupação:


“Hoje se fala abusivamente da mente crítica, mas, quase sempre, o que se propõe como formação crítica é a domesticação do aluno, conduzido à memorização da fórmula dita crítica, que o professor lhe inculca, sem lhe permitir que se dê conta de que está repetindo, criando a melancólica servidão, que se faz acompanhar da presunção de ser livre (1991, 32)”.

Essa proposta equivocada de educação nega o que há de essencial no processo educativo: a promoção e conquista da liberdade interior. Não esqueçamos: a liberdade é uma conquista. Ela é o resultado de uma busca empenhada, renitente. A conquista da liberdade interior é paulatina e o resultado de sua ausência pode ser desastroso. Pois a educação, educação de verdade é uma condição necessária para a vida. Só se é homem pela educação. Ela não é um mero ornamento acidental. É a educação dentro de um convívio social que o faz homem. Só se é homem entre os outros.


O homem é uma fonte inesgotável de possibilidades. Um amontoado riquíssimo de potências que devem ser atualizadas pela educação. A pessoa humana é essencialmente abertura. Abertura esta que possibilita a criação de si mesmo. E isso se dá no processo espiritual do amadurecimento: sobre as tendências e inclinações desmedidas e indeterminadas, o ser humano, pela educação, com a ajuda dos outros, vai colocando medida racional e definindo os marcos de sua personalidade.


Não podemos esquecer que o sujeito da educação tem inúmeras inclinações. Estas são situações anteriores a educação e representam imaturidade. Será precisamente função da educação colocá-las na medida da razão. Isso significa ver com os próprios olhos. É a possibilidade de escolher o bem e evitar o mal. Este aspecto inegável da educação deixa clara a importância da verdade. É ela quem deve estar no cerne do processo educativo. Só a verdade pode conferir a lucidez para decidir e escolher. Só a verdade verdadeira e realmente liberta.